quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tron: O Legado





Como típico filme produzido pela Disney, Tron O Legado (Tron Legacy no original), é um filme para toda família, com direito a versão 3D, que, aliás, cabe bem a esse gênero de filme, embora neste as cenas não tenham sido elaboradas para explorar tanto esse recurso. Tron é visualmente empolgante, deixando bem claro a diferença entre a computação gráfica de hoje e os recursos de efeitos visuais (na época, uma inovação) do anterior Tron Uma Odisséia Eletrônica (1982) do diretor Steven Lieberg

Por ter sido feito para atingir um público variado, o roteiro não aprofunda as discussões tecnológicas (uma pena), investindo mais na relação pai Kevin Flynn (Jeff Bridges) e filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) , estruturada a partir da separação de ambos e do reencontro no universo da rede de computadores. Kevin Flynn é o diretor da Encom International (uma multinacional de softwares) e fica mais de 20 anos desaparecido depois de desenvolver uma tecnologia capaz de introduzí-lo no sistema de computadores através de um portal, abrindo uma conexão entre o mundo real e o sistema de computadores de sua empresa. No universo dos computadores, Kevin cria Clu 2.0, um clone de si mesmo para fazer o programa Tron, de Alan Bradley (Bruce Boxleitner), desenvolver a rede. 



Clu 2.0, representando todo o seu “lado mal”, exerce seu papel de liderar uma “sociedade” dentro do sistema, de forma ditatorial, com o objetivo de reabrir o portal que comunica o mundo real e o sistema, para que este domine o mundo dos usuários. Clu 2.0 deseja declarar guerra à humanidade. Kevin, que detém a chave capaz de abrir o portal, mantém-se durante todos esses anos foragido, vivendo como um monge meditando e aguardando o caos, a virada, a oportunidade de acabar com as pretensões de Clu 2.0. Quorra (Olivia Wilde, a 13 de House MD), companheira de Kevin, representa os programas ISO que surgiram naturalmente no sistema, sem terem sido programados. Sendo a última naive sobrevivente, ela é a esperança de mudar o mundo real junto com seu filho Sam, segundo as palavras do próprio Kevin. 

Partindo de um objetivo inicial dito nobre, Kevin acreditava que poderia ser Deus e recriar o mundo real de maneira perfeita a partir do universo criado por ele na rede de computadores. O problema é que objetivos megalomaníacos, como esse, podem até ser aparentemente bem-intencionados, mas acabam cedendo aos inevitáveis chamados do desejo de poder. Suas pretensões de criar um mundo perfeito, à imagem e semelhança de seu sistema, parecem mais uma forma de privar a humanidade de sua liberdade (como em qualquer ditadura) do que de gerar benefícios para ela. Estreia: 17 de dezembro.

Tron - O Legado (Tron - Legacy) - 125 min
EUA - 2010
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Com: Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Bruce Boxleitner, Olivia Wilde, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen 


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Amor por Acaso



Em sua estreia como diretor de longa-metragens, Márcio Garcia ficou à vontade para abusar dos clichês. Decidindo juntar o formato comédia romântica americano com personagens caricaturais que forçam o riso, no melhor estilo Zorra Total, o diretor não conseguiu produzir um resultado interessante. A história de Amor por Acaso (Bed and Breakfast no original) gira em torno da disputa de posse de uma propriedade na Califórnia (EUA), entre o americano Jake - o Superman Dean Cain - e a brasileira Ana - Juliana Paes, de A Casa da Mãe Joana (2008). Jake recebe a propriedade de herança de uma velha amiga e Ana, a parente mais próxima da dona falecida, tem direito sobre o imóvel. 

As justificativas que levam Ana à Califórnia não dão peso dramático e acabam dispensáveis à história, já que qualquer pessoa que recebesse uma propriedade de herança iria ao local para ficar ou providenciar a venda do imóvel. Jake é o clássico cara-bacana que tem amor pelo lugar que transformou numa pousada para ganhar a vida, naquela região rodeada de vinhedos. O ator dá conta do seu personagem e consegue nos fazer esquecer que ele já foi o Clark Kent. Juliana Paes é Juliana Paes a maior parte do tempo e a decisão de fazê-la falar inglês com uma entonação parecida com a dos americanos tornou sua atuação artificial.


Voltando ao nosso mais novo diretor, Márcio Garcia pecou pelo excesso ao mostrar as curvas de Juliana Paes incessantemente, como se dirigir um filme fosse um ato de voyeurismo vulgar, chegando ao cúmulo de fazer um cena em que Juliana sobe uma escadinha, no melhor estilo Zorra Total. Os demais personagens que compõem a parte cômica da história têm tanta graça quanto aqueles personagens do programa de TV que citei e a história se arrasta para um clímax previsível e não empolgante.  

Márcio Garcia, da próxima vez, poderia pelo menos utilizar melhor os clichês, como aquele clima irresistível que uma boa comédia romântica tem, que, mesmo previsível, comove e te segura na poltrona, além de um humor mais malandro e debochado, que os brasileiros sabem bem fazer. Ah, é bom também alguém dizer para ele que todos nós já conhecemos os atributos físicos da Juliana Paes e que vender a mulher brasileira como um objeto sexual para o mundo é algo que já deveria ter sido superado. Estreia: 10 de dezembro.

Amor por Acaso (Bed and Breakfast) - 80 min
Brasil, EUA - 2010
Direção: Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Com: Juliana Paes, Dean Cain, Eric Roberts, John Savage, Kimberly Quinn, Julia Duffy  

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O Louco Amor de Yves Saint Laurent



Julgamos loucura aquilo que não entendemos. Julgamos loucos aqueles que se diferenciam de tal forma dos padrões da sociedade, a ponto de não ser mais possível classificá-los em nenhum padrão. Alguns loucos talentosos e influentes até são aceitos, outros são relegados ao esquecimento, ao desdém. Yves Saint Laurent não se enquadra em nenhuma dessas categorias, porque não era louco. Como disse bem  Pierre Bergé, seu companheiro por 50 anos, Laurent, como artista genial que era, enxergava a sociedade sem se sentir pertencendo a ela. O estilista era um espectador atento e crítico. Por outro lado, Laurent parecia tão oprimido pelo contexto que o cercava, como parecia encantado com suas criações estilísticas produzidas numa escala que beirava a compulsividade. Ele criava como se quisesse se aliviar de alguma angústia.
Em certo momento do documentário dirigido por Pierre Thoretton, Laurent diz que lamenta não ter vivido sua juventude como ela deve ser: livre,  irresponsável e ingênua. Isso porque ele assumiu, em 1957, aos 21 anos, o lugar de Christian Dior, tornando-se uma referência instantânea da moda mundial, dedicando, assim, sua vida a esse trabalho.  E para aqueles que costumam dizer que não entendem nada de moda, eu me solidarizo. Creio que enxergamos a moda como um mercado fútil de venda de roupa cara. Na verdade, também é. Mas fica claro, nos poucos momentos em que o próprio Laurent se expressa no documentário, que as roupas, para ele, são como os quadros para Monet. E a maneira como Laurent transformava tudo que estava ao seu redor em arte de vestir é de fato admirável.
É uma pena que a sensibilidade do artista ganhe um tom melancólico durante todo o filme, reafirmando mais sua depressão que seu talento, julgando mais seu temperamento que compreendendo sua forma de olhar o mundo.  Laurent criticava seu meio social como um lugar sufocante para quem produzia alta-costura e por quem era sempre demandado originalidade e desenvoltura geniais. As várias tomadas que mostram suas casas e seus muitos objetos de decoração (que ele preferia, em lugar de pessoas) se mostraram de um certo mau gosto, dando ao documentário a impressão de ser um vídeo imobiliário. Aliás,  Pierre Bergé complementa essa impressão, sendo retratado como o apoio profissional e a pessoa encarregada de dar conta dos negócios, parecendo aliviado durante o polêmico processo de leilão das obras de arte do casal após a morte de Laurent. Estreia: 03 de dezembro.

O Louco Amor de Yves Saint Laurent (Pierre Bergé, L'amour Fou) - 104 min
França - 2010 
Direção: Pierre Thoretton

 
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domingo, 28 de novembro de 2010

Coppola e o crime organizado no RJ.



Nesse domingo de sol típico de primavera, às vésperas da pré-estreia de Tetro com a presença de Francis Ford Coppola no Rio de Janeiro, a cidade encontra-se às voltas com uma guerra civil entre o crime organizado e o Estado. Diante desse cenário, minhas emoções ficaram misturas. Não consigo parar de pensar nos dois filmes que mais amo na vida, por acaso (?) ambos do Coppola, mas também não consigo mergulhar nas lembranças das inúmeras vezes que assisti Drácula de Bram Stoker e O poderoso Chefão e esquecer do que está acontecendo na cidade. Sendo inevitável lidar, ao mesmo tempo, com minha memória cinematográfica e a preocupação em relação à realidade, acabei enxergando alguma semelhança entre ambas.
Assisti Drácula com uns 14 anos de idade e lembro que fui com meu irmão ao cinema porque gostava de filmes de terror. Para minha surpresa, descobri, ao longo daquelas 2h na sala escura, que tratava-se de uma história de amor que superava o tempo e a própria morte, embora permeada pelo ódio, colorida de sangue e impulsionada por uma necessidade de vingança pela vida roubada, pelo amor não vivido em toda sua plenitude. Assustador e sedutor ao mesmo tempo. Fiquei encantada! Assistimos duas sessões seguidas apenas pagando a primeira_ naquela época se podia fazer isso. Bons tempos!
Mais ou menos na mesma época, descobri O poderoso chefão. Era véspera de Natal e enquanto minha mãe preparava rabanadas, fui me distrair assistindo à sessão da tarde. Sabe-se lá porque razão, o filme exibido naquele dia foi O poderoso chefão III. Comecei a assistir meio sem interesse e logo estava hipnotizada pela história e pelos personagens. Comentei com o meu irmão que me disse: “Você gostou desse? Precisa ver os dois anteriores!”. Não perdi tempo, fui à locadora e aluguei as fitas (!!!) do primeiro e do segundo filmes da saga Godfather (título original).
Embora não entendesse de maneira profunda o conteúdo denso da história da família Corleone, ela me marcou da maneira que só os grandes amores podem fazer: tornou-se parte da minha história e da minha vida enquanto cinéfila. Me impressiona até hoje como os personagens e a narrativa me capturam de tal forma que me surpreendo sendo cúmplice de todos os crimes e jogos de poder em nome da manutenção daquela família ítalo-americana. Por mais que eles façam parte do crime organizado, que façam dinheiro às custas da exploração e do assassinato de outras pessoas, é impossível para mim não me comover com as tragédias que acontecem dentro da própria família Corleone. A trajetória de Michael Corleone (o Godfather que orquestra os 3 filmes) é marcada por muita dor, mortes e um enorme conflito entre razão e emoção. Michael diz: “Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade” e acrescenta: “Fazemos parte da mesma hipocrisia, mas não pense que isso se aplica a minha família”. Mas, ao longo da sua atuação enquanto chefe daquela família/organização, ele mostra-se impiedoso e brutal ao lidar até mesmo com pessoas de seu próprio sangue. No fim da sua trajetória, ele lamenta: “O que me traiu, minha mente ou meu coração?” Nesse momento, acredito que ele se perguntaria ainda: até que ponto matar os inimigos protegeu ou colocou a família ainda mais em risco? Fiz o que fiz pela família ou pelo poder? Ou não foi possível separar as duas coisas?
Pensando nesses meus dois amores cinematográficos, me deparo com a realidade do Rio de Janeiro. Vidas são roubadas, sonhos se perdem, amores são interrompidos em sangue e lágrimas, assim como na história do vampiro de Bram Stoker. Facções criminosas mantem o poder do tráfico empregando armas, violência e medo, assim como as organizações mafiosas retratadas na saga da família Corleone. E, exatamente por causa desse contexto, temos pouco acesso à história das pessoas que vivem nessas comunidades controladas pelo tráfico. Mal sabemos de suas dores, de suas dificuldades, de seus medos. Assistimos como espectadores assistem a uma tela de cinema, com o distanciamento próprio daqueles que acompanham a história de um filme. Aí me pergunto: será que não deveríamos dar mais atenção às histórias das pessoas que residem nessas comunidades (não só o complexo do Alemão, mas todo tipo de comunidade carente), no lugar de focar a atenção no espetáculo do crime organizado? Porque os espetáculos duram o tempo da projeção e depois são esquecidos pela maioria dos espectadores. Talvez seja melhor deixar alguém como o Coppola retratar o crime organizado como entretenimento e a nós caberia o papel de olhar para a realidade, para aquelas pessoas que tem seus direitos cerceados pela crime e pela negligência do Estado, tendo como testemunhas, como num filme de cinema mudo, um conjunto de pessoas sem voz chamado de sociedade.

sábado, 6 de novembro de 2010

Resenha "Minha terra, Africa"



A primeira coisa que me veio à mente, logo no início do filme, foi: o que aquela mulher branca, de aparência frágil, está fazendo sozinha num descampado isolado africano? E a pergunta permanece ao longo da projeção. Maria - a atriz francesa Isabelle Huppert, de A Professora de Piano (2001) -, diz que não se pode ter coragem na França, que viver com conforto é um estilo de vida covarde. A esse argumento ela se agarra como a um bote salva-vidas no meio do oceano e percorre toda a história de Minha terra, África, dirigido por Claire Denis, de Desejo e Obsessão (2001).  

O problema é que no seu “bote” de coragem só cabe uma pessoa - ela mesma - e sua produção de café. Numa cena interessante, um dos meninos do grupo armado rebelde encontra um objeto dourado que mais parece uma pequena barra de ouro. Mas logo descobrimos que trata-se de um mero isqueiro ao qual o líder do grupo se refere, de forma pejorativa, como White Material (título original), ou seja, coisa de branco. Nesse momento, e em vários outros, o desagrado e até o ódio dos negros com a presença dos brancos vai se revelando através de olhares, gestos e palavras. O clima é tenso e parece que só Maria se recusa a enxergar que a situação piora cada vez mais.  

O marido de Maria, André (Christopher Lambert, o eterno Highlander, gastando seu ótimo Francês), não acredita mais que é possível permanecer na fazenda, pois eles estão cada vez mais isolados e expostos a invasões dos rebeldes e ao fogo cruzado. Seu filho adolescente, Manuel (Nicolas Duvauchelle), mostra-se claramente deprimido e desorientado. Todos os negros, temendo a morte, seguem fugindo para longe. Os rebeldes rondam a região, o governo combate. Homens, meninos e meninas - filhos dos massacres, do descontentamento com a presença dos colonizadores e da história africana de guerras civis - morrem e matam. Todos estão com medo, menos Maria.  

Diz-se que o medo é o que regula a coragem como forma de auto-preservação, mas parece que Maria se alimenta mais de coragem que de medo. Uma coragem em defesa do seu próprio conceito de coragem (viver fora do conforto) e do produto do seu trabalho, o café. O mundo desmorona a sua volta, mas ela tem coragem. Só que quando a coragem não é usada para defender pessoas, e sim como uma atitude teimosa e alienada, ela pode ser tão letal quanto uma espingarda. Minha terra, África é um longa de ficção com jeito de documentário, com câmera lenta contemplando os cantos daquela fazenda, as pessoas... Mas a pergunta inicial permanece, não porque não sabemos as razões dos brancos estarem na África, visto que muitos já até são cidadãos de lá. A questão é outra: África, terra de quem? Estreia: 05 de novembro.

Minha Terra, África (White Material) - 106 min
França, Camarões - 2009
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Marie N´Dianye, Lucie Borleteau
Com: Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, Isaach de Bankolé, William Nadylam

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sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha "Sentimento de culpa"

A culpa é um sentimento que habita o universo do castigo. Quando alguém diz: “Menino, você comeu o bolo todo! Devia se envergonhar!”, pronto, a culpa ganhou vida, forma e importância. O menino vai se sentir humilhado ou não, vai comer o próximo bolo inteiro de novo ou não. Mas vai guardar o aprendizado de que há coisas que não se deve fazer, mesmo sem entender bem o porquê. E se essa mesma pessoa advertisse: “Menino, você comeu o bolo todo! Os outros meninos têm o mesmo direito que você. Isso está errado!”. Será que esse aprendizado semearia também a culpa ou ajudaria a construir a consciência do que é certo? Será que ter a consciência do que é certo ou errado também não seria uma forma de culpa?

Fazer o que é certo tem como referência nossos valores morais, nossa estrutura social. E, em geral, fazer o certo demanda um equilíbrio entre o que nós desejamos individualmente e aquilo que é bom para todos. Nesse contexto, há pessoas como a personagem Kate, vivida pela excelente Catherine Keener, que levam a culpa muito a sério e carregam um bloco de concreto nas costas, utilizando esse sentimento para alimentar um outro: a própria melancolia representada pela impressão de que ser feliz é uma manifestação de egoísmo.

O problema é que Kate, junto com seu marido Alex (o ótimo Oliver Platt) vivem de comprar móveis e objetos de decoração, por preços baixos, de pessoas recém-falecidas, e vendê-los por preços bem mais elevados - o que soa meio tragicômico e bem cínico. Kate faz lucro com a desgraça alheia, mas sofre e tenta compensar fazendo caridade. Em contraponto, a personagem de Amanda Peet, Mary, utiliza de uma sinceridade neurótica e agressiva para se livrar da culpa que as mentiras produzem. Ela se mostra fria e amoral, jogando a culpa de suas frustrações no resto do mundo, principalmente sobre a avó ranzinza Andra (Ann Guilbert), vizinha de Kate e Alex. Enquanto Kate disfarça sua culpa como solidariedade, Mary utiliza a culpa como ressentimento.

E os personagens de Sentimento de Culpa, da diretora Nicole Holofcener - de Amigas com Dinheiro (2006) - vão desfilando suas vidas cotidianas, ornamentadas com suas pequenas ou grandes culpas. Um relato delicado e bem focado na natureza humana e seus conflitos, com um humor bem sutil e ácido, caracterizando-se mais como drama do que como comédia, com um excelente elenco. Em certo momento do filme, me perguntei até que ponto somos conectados uns aos outros através da culpa, em vez do amor. Talvez se importar demais com os outros ou consigo mesmo seja, de qualquer maneira, uma forma de demonstrar mais ou menos amor. No fim, somos todos culpados ou culpamos alguém pelas nossas derrotas ou por nossas vitórias, por sermos amados ou não, por sermos felizes ou não. Estreia: 29 de outubro.

Sentimento de Culpa (Please Give) - 90 min
EUA - 2010
Direção: Nicole Holofcener
Roteiro: Nicole Holofcener
Com: Rebecca Hall, Elizabeth Keener, Elise Ivy, Catherine Keener, Josh Pais, Amanda Peet, Oliver Platt, Ann Guilbert

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sábado, 7 de agosto de 2010

A origem



Afinal, por que sonhamos?
Os sonhos, aqueles episódios diários orquestrados pelo nosso subconsciente, diz-se que tem por função organizar nossas ideias. Nós vivemos, experimentamos decisões, fazemos escolhas, corremos de um lado para o outro... E quando repousamos nossa noção de realidade no travesseiro, tudo por que passamos é, em teoria, revisado numa espécie de limpeza, onde nossos resíduos imaginários-sinápticos são varridos para longe da nossa consciência. Mas, para que isso? Talvez para nos manter sãos no mundo real.
Os sonhos, aqueles objetivos que mantemos em mente enquanto estamos acordados e que nos empenhamos em realizar, não são muito diferentes. Quando acordados, nós costumamos fazer uma seleção daquilo que desejamos, descartando, mesmo que temporariamente, outras possibilidades. Nos concentramos nos nossos sonhos afim de que sejam realizados. E quando testemunhamos diante de nossos olhos o resultado do nosso esforço, somos tomados por um estado de plenitude e esvaziamento concomitantes. Aquela completude breve seguida da constatação do reinício inevitável. A nossa liberdade de sonhar, tão doce, tão almejada sempre, se converte na angústia da realização do sonho que, por sua vez, nos projeta adiante. Sempre... O desejo concretizado é o vazio da realidade que clama por um novo sonho, como um copo vazio nas mãos de um sedento. 

Talvez, a diferença entre a realidade e sonho seja o limite tênue entre o impulso inicial e o fim abrupto, que se distanciam por um universo inteiro e por um nada. E esse espaço vazio e cheio ao mesmo tempo, seria um limbo ao qual nos remetemos de tempos em tempos quando tentamos converter nossa realidade em sonho ou fazer dos nossos sonhos uma realidade.
Não sei...


domingo, 16 de maio de 2010

Resenha: Fonte da vida (The Fountain)

A “árvore da vida” e a “árvore da sabedoria”.Izzi (Rachel Weisz) e Tommy (Hugh Jackman). Eva provou do fruto da sabedoria e a ela e Adão foi negado o fruto da vida, assim Izzi fala sobre a finitude humana que tanto procuramos desvendar e até superar.
Encantadora, Izzi é encantada pela ideia de que tudo o que existe constitui a mesma matéria e possibilidades infinitas de manifestação de vidas: “Se ao morrer, você for enterrado junto à semente de uma árvore, um dia o fruto dessa árvore será alimento de um pássaro. Você voará com ele.”, ela diz a Tommy resignada. Izzi acredita que pode voar: “I'm not afraid anymore”(eu não tenho mais medo), ela confessa.
De sua “árvore da sabedoria”, Tommy se alimentou a vida toda e não admite não ter o conhecimento necessário para curar Izzi de sua enfermidade. Ele é um bravo conquistador, como ela mesma o chama, incansável, porém distante em sua busca pela negação da morte. Não se pode lutar contra a natureza das coisas e compartilhar a compreensão dessa mesma natureza ao mesmo tempo, não é? Izzi diz: “Finish it” (termine), mas ela não está falando do experimento do laboratório de Tommy, ela fala do sofrimento dele de se sentir impotente diante da morte eminente dela. “Finish it” poderia ser “Understand it”(compreenda), mas aí não seria entendimento, seria convencimento.
Izzi quer que Tommy veja com seus próprios olhos um pouco mais além. Quer que Tommy assuma sem constrangimento suas limitações enquanto ser humano e cientista e também compreeenda seu potencial infinito de fazer parte da vida em si, do significado da vida, do estar presente, do estar perto...dela e de todos ao seu redor.

Izzi sabe, com uma paz invejável, que quando se perde a esperança, perde-se o medo e evita-se a decepção. Sabe que ter esperança é como se projetar para o futuro, negando o valor do presente. E o futuro é nada mais que um tempo ainda não vivido. Mas essa ideia não nega a importância dos sonhos, embora eles existam para durar uma só noite e alimentar o presente que nos é oferecido todos os dias. Para Izzi, a vida é agora e o amor transcende esse invólucro temporal que nos aprisiona.


Fonte da vida (The fountain
)
EUA , 2006 .

Direção:
Darren Aronofsky_ o mesmo diretor de "O lutador" (The Wrestler)- 2008 e "Réquiem para um sonho" (Requiem For a Dream)- 2000.

Roteiro:
Darren Aronofsky e Ari Handel

Elenco:
Hugh Jackman, Rachel Weisz, Marcello Bezina, Alexander Bisping, Ellen Burstyn, Cliff Curtis, Sean Gullette, Mark Margolis, Donna Murphy, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas



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sexta-feira, 30 de abril de 2010

A grade festa.

Pessoa suspeita pra falar... Eu sou incondicionalmente apaixonada pela comida italiana. Não só pelos sabores do azeite, do manjericão, dos molhos, das massas... Mas também por toda a cultura e as simbologias que essa comida representa. Não é à toa que não estou usando o termo “culinária” e sim comida, porque italiano aplica paixão e delicadeza combinadas para modelar as massas, temperar os molhos, mantendo um contato orgânico constante com os alimentos que prepara_ amo isso! Uma sofisticação caseira de quem está preparando comida para sua amada família. Daí se fazem refeições generosas, saborosas e calorosas. Eu me sinto acolhida e feliz debruçada sobre um prato de comida italiana numa cantina típica.

No filme “A grande noite”, dois irmãos italianos emigram para os EUA buscando uma oportunidade de prosperar fazendo o que eles sabem fazer de melhor: comida! Mas, o restaurante deles em Nova Iorque não vai muito bem. Com um cardápio e um ambiente seguindo as tradições italianas, o lugar não atraia a clientela americana interessada em pratos mais adaptados aos hábitos alimentares locais. Isso fica evidente logo no início do filme no embate entre uma cliente insatisfeita com um risoto e Primo (Tony Shalhoub) o chef de cozinha. Dotado de talento para preparar uma típica e deliciosa comida italiana, Primo se recusa a se curvar aos hábitos americanos, considerando sua arte uma forma de “educar” seus clientes na apreciação da verdadeira cucina italiana, deixando claro seu desprezo pelos hot dogs. Por outro lado, seu irmão Secondo (Stanley Tucci), seduzido pelos valores locais e desejando enriquecer, tenta convencer Primo a se adaptar. A relação dos irmãos, embora muito conflituosa, é extremamente amorosa e indissolúvel, como toda família deve ser. Entre problemas e panelas, o filme segue delicioso...

Ao contrário do longa dinamarquês “A festa de Babette” (frio e monótono), “A grande noite” é um filme que nos seduz desde o inicio, o que me fez lembrar daquela cena de “O Poderoso Chefão 3” (Francis Ford Copolla) em que os apaixonados personagens de Sofia Copolla e Andy Garcia preparam nhoque juntos com uma sensualidade sutil, conferindo às relações humanas daquela história um ar familiar e saboroso em contraste com a violência da máfia. “A grande noite” dos diretores Campbell Scott e Stanley Tucci passeia pelas tradições americana e italiana, fazendo contrapontos a todo momento, ao mesmo tempo em que demonstram a riqueza da interação entre as duas culturas. Destaque para o extravagante e ambíguo Pascal (Ian Holm) que nos presentei com as cenas mais cômicas do longa, Bob (Campbell Scott) um vendedor de carro cara de pau e a sempre molto bella Isabella Rossellini.

O único problema desse filme é o espectador não poder participar do banquete servido na grande festa que tem por intenção livrar o restaurante da falência, mas que acaba mesmo é nos deixando com água na boca. Recomendo assistir ao filme e partir logo depois para a cantina italiana mais próxima.


*Esse filme foi exibido hoje na Casa da Ciência-UFRJ, fazendo parte da programação do Colóquio Educação, Alimentação e Cultura promovido pela instituição. http://www.nutes.ufrj.br/coloquio/

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Sonhos roubados"

Noutro dia conversava com um amigo a respeito da situação do cinema nacional, a quantidade insuficiente de salas exibindo os filmes brasileiros e a resistência do público a ir ao cinema assistir um filme nacional.

Refletindo sobre as razões desse panorama, fiquei imaginando o que leva as pessoas a uma sala de cinema. Acredito que uma parcela grande do público que vai ao cinema, busca entretenimento, aquele faz-de-conta de 2h onde se pode ser um policial durão, um aventureiro, uma pessoa apaixonada, um vilão caricato, um mocinho meloso... Pode-se viver paixões, amores rasgados, medos, angústias, pode-se voar, chorar, rir, estar no presente, no passado ou no futuro sem sair do lugar, sem consequências. E assim que as luzes da sala acendem, pode-se despir aqueles personagens e seguir a vida carregando um pouco daquelas vivências imaginárias consigo. Diante disso, consigo compreender as pessoas que não pagam ingresso (caro, aliás) para assistir o mesmo que se vê todos os dias no noticiário: violência, tráfico, tiros, tensão... Sem querer desmerecer os filmes que ajudaram a revitalizar o cinema brasileiro, pois alguns são de uma qualidade inquestionável_ como o “Cidade de Deus” por exemplo_ embora tragam uma crueza real e indigesta que as pessoas tem o direito de não escolher como entretenimento. Esses filmes representam uma abordagem necessária da realidade social do Brasil sim, mas hoje o filme “Sonhos roubados” me confirmou que existem outras formas de se falar de realidade.

A história guiada pela diretora Sandra Werneck (Cazuza-O tempo não pará) retrata a vida de três adolescentes (Jéssica, Daiane e Sabrina) da periferia do Rio de Janeiro que, por circunstâncias diversas, acabam se envolvendo com prostituição. O filme fala sobre isso não de um jeito banal e se preocupa em oferecer o pano de fundo que conduz essas meninas a vender sua intimidade em troca de dinheiro para pagar conta, sustentar filho ou até mesmo comer. Naquele ambiente falta tudo, menos a capacidade dessas meninas de sonhar. Fala-se de assuntos densos, incômodos, mas com uma delicadeza feminina que faz toda a diferença. Mesmo inseridas numa cultura que banaliza o sexo_ em especial o movimento do funk_, sem perspectivas, sem estrutura familiar, educacional ou de saúde etc, Jéssica, Daiane e Sabrina encontram na amizade entre elas um apoio para preservar a esperança por dias melhores no futuro. Tudo na vida delas é difícil, mas elas não nos inspiram pena, elas nos cativam com suas trajetórias humanas, demasiado humanas.

Talvez, temas como os tratados em “Sonhos Roubados' devessem receber sempre esse toque de delicadeza para que se possa conseguir um equilíbrio entre crítica social e arte cinematográfica. Ganha o filme em audiência e qualidade, ganha o espectador em cinema e entretenimento.


*Estréia 23 de Abril de 2010.


Trailer:

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Para ouvir essa música maravilhosa na íntegra (ótimo uso da batida do funk):

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Para baixar:
http://www.4shared.com/file/256131614/ff98f432/Maria_Gad_-_Sonhos_Roubados__T.html

terça-feira, 13 de abril de 2010

Breve oração excepcional.

"Só o Rock N' Roll Salva! Rock n' Roll que estais em chamas, abominado sejam os vossos nomes, venha a nós o vosso pub, seja feita a vossa gostosa maldade, assim em festivais, bares e quintais. O "Riff" nosso de cada dia nos dai "moshes", perdoais as nossas ofensas assim como nós perdoamos funks, rebolations e sertanejos, e não nos deixeis cair em alienação, mas livrai-nos do Nhem. Amém! Yeah!"
(por Alexandre Soma www.alexandresoma.com)

domingo, 11 de abril de 2010

Trailer "Persona"

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Minha primeira vez com Bergman

Para alguns isso pode soar estranho, para outros normal. O fato é que até a última sexta-feira eu nunca havia visto nenhum filme de Ingmar Bergman. Não por descaso ou desgosto... Não aconteceu antes, essas coisas da vida. Claro, não tenho formação em cinema, não sou pesquisadora da sétima arte, nem mergulhei nos clássicos antes de começar a gostar de assistir filmes. Meu amor pelo cinema_ sentimento tranquilo, paciente e pleno que é_ jamais me fez afoita e desesperada. Fui me deixando levar pelos filmes mais simples, aqueles de sessão da tarde... Depois passei a devorar todas as fitas da videolocadora até que não restasse nada novo que eu não tivesse visto. E, num movimento natural, comecei a me interessar pelos filmes mais originais_no sentido de origem e de originalidade_, pelos diretores mais destacados, pelos atores mais performáticos... Enfim, quando me dei conta, não podia mais viver sem o cinema.

E como os filmes reacendem eternamente a paixão no plácido sentimento de amar a sétima arte, toda vez que me apaixono por um, me entrego ao entusiasmo e à contemplação... Foi o que, aliás, também aconteceu quando assisti “Ilha do Medo”, cujas qualidades descreverei em outra ocasião, porque me proponho a falar de Bergman hoje. Mais especificamente sobre “Persona”. Então porque falei do filme do Scorcese? Pelo fato de que ambos os longas falam de sanidade e loucura de maneira hipnotizante.

Persona” estava na minha lista de pretendidos há algum tempo, mas todo filme tem seu momento certo. Tenho certeza que não teria degustado com tal prazer se o tivesse visto antes. Um cineasta que introduz você no universo do filme e dele próprio, antes da história começar, merece, no mínimo, 2h da nossa atenção. Para situar o expectador na insanidade da narrativa, Bergman usou imagens perturbadoras e desconexas antes do filme. Quando este começa, nós já estamos prontos para pirar juntos com a personagem_ ou as personagens? A trilha sonora opressora e os enquadramentos quase 3x4 sufocam, nos desestabilizam., encantam. Fora os diálogos que são de uma riqueza de entrega dos receios e dramas mais íntimos daquelas pessoas passeando pela tela. O preto e branco traz luz e escuridão, tão belos e perfeitos para prender nossa atenção ao que interessa.

Ainda não conheço bem Ingmar Bergman para dizer que terei por ele um amor eterno, mas digo com toda certeza que na minha primeira vez com ele, eu me apaixonei.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Uma noite fora de série

Quem disse que vida de adulto tem que ser chata? Numa proporção maior ou menor, todos nós! Mais ou menos dos 15 aos 30 anos somos alvejados com expectativas que incluem carreira, família, dinheiro, blá-blá-blá. Você tem que ter um bom emprego, ganhar bem, ter lindos filhinhos de bochechas rosadas. Tenta fazer diferente pra ver. Você precisa crescer, amadurecer, assumir responsabilidades, ou seja, virar um chato de galocha_ adoro essa expressão.

É exatamente diante desse dilema que se encontra o casal Phil (Steve Carell, de “Agente 86”) e Claire (Tina Fey, da série “30 Rock”) Foster. Com empregos tradicionais e rentáveis, dois filhos pequenos e saudáveis e um casamento pra lá de estável _quase estático_ e um dia-a-dia corrido, os Fosters se veem numa crise de tédio. Para quebrar o gelo da relação, Claire decide caprichar no visual e o casal vai num badalado restaurante no centro da cidade. È a partir daí que a confusão se inicia. Sem reservas no restaurante, eles fingem ser o casal Tripplehorn para conseguirem uma mesa. Eles só não poderiam imaginar que os Tripplehorns estavam sendo procurados pelo chefão do crime da cidade. Seguem-se, então, sequências ligeiramente tensas e de humor mais sutil, que a partir do meio do filme, se transformam em cenas mais cômicas_ um humor cínico, pouco escrachado_ e ágeis, com destaque para a perseguição de carro (sensacional!) e a dança do clube noturno (hilário!). Entre risos e as fugas do casal, o filme introduz algumas DRs na história, sempre com discussões breves com as quais todas as pessoas que já tiverem um relacionamento mais longo vão se identificar e rir de si mesmas. Lembra bastante a história de “Os Normais 2-A noite mais louca de todas”, sendo que Vani e Ruy são, de longe, muito menos família, se é que me entendem...

No fim das contas, o diretor Shawn Levy (“Uma noite no Museu”) conduz um filme que fala de relacionamento de maneira que o espectador não ache chato. Além do mais, o roteiro de Josh Klausner (“Shrek para sempre”) sugere que fazer do dia-a-dia algo mais emocionante pode ser mais simples do que se imagina_ concordo. Só cuidado pra não exagerar nas extravagâncias para não ir do adulto chato à criança quebrando vidraça da casa do vizinho...

Participações para lá de especiais de Mark Ruffalo (“Ilha do Medo”) com seu carisma rotineiro, Mark Wahlberg (“Max Payne”) com seus músculos definidos, Ray Liota (“Território Restrito”) com seu convincente bad guy e de James Franco (“Homem Aranha 3”) quase irreconhecível.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Respeitável público!

Não sou fã de Rock, de banda ou qualquer cantor ou artista. Tirando minha admiração particular pela Cássia Eller, que dá show agora em outro plano astral, curto Rock como quem curte qualquer boa música de sua preferência. E considero os shows de Rock os mais espetaculares, especialmente pela força do som e aquele faz-de-conta-que-sou-rebelde, personagem muito divertido que adoro interpretar.
Entretanto, é lamentável que o show do Guns and Roses ontem na Apoteose tenha sido desperdiçado pelo atraso de 2h30min no melhor estilo “foda-se” de ser. Sem justificativa, sem satisfação ao público. Nada foi dito. O Sebastian Bach que veio abrir o evento deu um show de verdade: o cara era pura disposição, simpatia e vontade de zoar com a galera. Interação total público-artista, satisfação para todos. O público reconheceu o empenho do Sebastian, aplaudindo muito no fim do show. Um espetáculo!
Mas, após a saída de Sebastian do palco, o tédio, o cansaço e a irritação abateram o público presente que iniciou uma constante e justa vaia coletiva, xingamento em coro etc. Afinal, ninguém tinha que trabalhar hoje, todos podiam esperar a noite inteira até que o Guns achasse que era hora de dar às caras, né? Fiquei extremamente irritada porque o show tinha tudo pra ser incrível, mas na hora que começou, as pessoas estavam tão cansadas que queriam mais era ir pra casa dormir. E muitas abandonaram o show antes de começar e ao longo do mesmo. Platéia fria, show frio. O som estava impecável, as luzes, cenário... Tudo como deveria ser. Mas, já era tarde. Literal e figurativamente. O descaso escroto da banda estragou uma noite que poderia ter sido memorável.
Aos fanáticos imbecis que vierem dizer que quem não aguenta, não vai a show de Rock, eu digo: fui no U2 em SP, ida e volta no mesmo dia, fiquei no estádio das 15h às 22h para ver o show dos caras e eles tiveram o RESPEITO de iniciar o show pontualmente. Palmas pra eles! Showzaço!Porque o que cansa/irrita/frustra não é a espera, e sim não saber sequer se vai assistir ao show. Se ser fã é dar a cara pra bater e ainda achar que merece, prefiro continuar meu itinerário de apreciadora apartidária da música.
Respeitável público, os caras do Guns foram, ontem, um bando de palhaços!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sede de Sangue.

Filme de vampiro que se preze tem que ter sangue. Não uma cachoeira trash e tão pouco somente umas gotinhas tímidas escorrendo no canto da boca do predador. Tem que ter aquela quantidade certa que torna o vampiro repulsivo e magnetizante, afinal, quem não sente medo de um humano sobrenatural sanguessuga e, ao mesmo tempo, consegue não ficar hipnotizado para um vermelho vibrante? No caso do filme do diretor e co-roteirista Chan-wook Park (o mesmo de Oldboy), o vermelho sanguíneo é utilizado na medida certa para colorir os cenários pálidos do início da história e contrastar com o fundo branco recorrente e o figurino em tons de preto e azul dos protagonistas_ destaque para os belos tons de azul dos vestidos de Tae-joo, personagem da atriz Ok-vin Kim_ no terço final.

Sang-hyeon (vivido por Kang-ho Song) é um padre coreano que trabalha junto a um hospital, orientando espiritualmente aqueles à beira da morte e seus parentes. Sang-hyeon, além de atuar nesta fronteira entre a vida e a morte, transita numa outra fronteira ainda mais complexa: aquele deserto sem lar que separa a ciência da religião. Sang-hyeon acredita que a ciência está a serviço de Deus e que seu rebanho deve rezar e tomar todos os remédios prescritos. O padre acredita na fé, mas não acredita em milagres. Diante dessa contradição, numa decisão auto-flagelativa, se oferece de cobaia a um experimento que busca a cura de uma doença infecciosa e, durante o processo, acaba virando vampiro.

Bem, quem gosta de vampiros sabe que o sangue vampirizante não tem uma explicação lógica, uma origem conhecida ou uma referência estritamente sobrenatural. Diz-se que a Porfiria, uma doença sanguínea rara, estaria por trás da lenda vampiresca. Especulações draculescas à parte, o sangue do vampiro tem o poder de transformar outros humanos em vampiros. Aliás, ser vampiro é uma condição de deixar de ser humano? Questão sempre presente nesses filmes, nunca respondida. Uma criatura que vive nas sombras, bebendo sangue pra “viver”encontra-se também numa fronteira entre vida e morte. E o padre segue seu martírio... Angustiado e cheio de culpa por ter desenvolvido seus instintos e aguçado seus desejos acaba, naturalmente, se apaixonando por Tae-joo_ jovem de fragilidade duvidosa. O padre perdido do seu rebanho se depara com um lobo em pele de cordeiro e se entrega.

Na forma realista e orgânica de tratar a sexualidade e a exposição das entranhas, “Sede de Sangue” lembra muito o longa “Deixa ela entrar”, embora o filme sueco tenha todo um jeito de obra de arte cinematográfica. A sonoplastia faz tudo parecer muito suculento, se é que me entendem.... A saga de contradições do padre-vampiro tem um conteúdo dramático e filosófico muito bom, belas cenas do típico tesão-reprimido-oriental que fazem o expectador querer estar em outro lugar e sequências que misturam um quê de macabro e humor negro que agrada em cheio os amantes desses conteúdos. Aliás, como bom filme de vampiro, segue-se uma história de amor e, por este sentimento, mata-se e morre-se.

Filme ótimo para os que se deliciam com uma obra vampiresca realista de amor-terror e não muito indicado para aqueles mais sensíveis, adeptos dos filmes de sessão da tarde.

terça-feira, 30 de março de 2010

eu uso ó-cu-loooos!

Esse fim de semana eu assisti ao documentário “Herbert de perto”. Embora conheça e goste da maioria das músicas dos Paralamas do Sucesso, não conhecia bem a trajetória do grupo. Na verdade, nunca procurei saber muito também. Meu conhecimento de cultura musical é muito mais restrito que meu conhecimento sobre cinema que já nem é isso tudo. Além disso, tenho um gosto particular por redescobrir ou destrinchar aquilo que parece já esclarecido. Acredito que em tudo na vida há sempre o que desvendar. Detalhes e idiossincrasias me interessam...

O documentário, embora o título sugira, não fala só do Herbert. Ele funciona como eixo para uma viagem na trajetória da banda e para retratar um pouco a história do Rock nacional_ as fotos deles com a galera do Legião em Brasília são emocionantes. Mas Herbert Viana está lá o tempo todo, mostrando que Clark Kent não precisa tirar os óculos para ser Super-homem. Aliás, foi com a música “Óculos” que a banda decolou, com uma letra que mostra como podemos fazer de um incômodo um sucesso. Herbert resolveu transformar sua falta de jeito em conquistar as meninas em música. Eu o entendo, também uso óculos e devo testemunhar que as pessoas nos veem de forma diferente. Com óculos, ganhamos um ar intelectual-nerd, o que faz pensar que somos inteligentes-chatos e isso não é sexy. Aliás, um recurso recorrente no cinema e na televisão é a pessoa aparecer de óculos para “enfeiá-la” e depois se livrar deles, ficando atraente. Juro, não é piada de filme do Super-homem! As pessoas não reconhecem a gente sem óculos!

Mas, voltando ao documentário... É a partir desse sucesso que a banda deslancha e Herbert deixa pra trás o sonho de ser piloto da aeronáutica, já anteriormente negado pelos problemas de visão do cantor. Os Paralamas, então, emendam um sucesso atrás do outro e Herbert se vê numa situação financeira que o permite pilotar de forma amadora. E o sonho negado na juventude acaba sendo o meio dele tragicamente perder a mulher e ficar com graves sequelas após o acidente de avião há alguns anos atrás. Fiquei pensando muito sobre isso. Ele deu uma volta imensa na vida para voltar ao ponto original: a aviação, o sonho de menino. E o sonho se transformou em pesadelo num instante. Por outro lado, se ele não tivesse aprendido a voar, é provável que passasse a vida frustrado, pensando em como seria a vida se tivesse sido piloto. Até onde um sonho é um sonho ou uma obsessão, uma teimosia? Até onde devemos seguir e quando é a hora de parar? Perguntas intrigantes sem respostas definidas.

Há uma cena marcante em que Herbert hoje assiste a um vídeo em que ele mesmo, nos seus 20 e poucos anos diz mais ou menos assim: “Não há nada que eu sinta que eu não possa fazer. E se um dia algo acontecesse e mudasse a minha vida de forma radical, eu começaria tudo de novo, do zero...”. E, inevitavelmente, me veio à mente a frase: “Cuidado com o que você deseja”. A vida dele virou do avesso e como prometido, mesmo cheio de limitações e dores, ele recomeçou apoiado no afeto das pessoas e em seu amor pela música. Um cara de garra e de fé.

Herbert, de longe, é um personagem notável. Possui uma forma singular de elaborar seus pensamentos e de acreditar em sua conexão metafísica com o universo. No mínimo, um cara interessante de se ouvir.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Dupla Implacável.

Me parece que depois de seu longa “Busca Implacável”, vai virar tendência os filmes de Pierre Morel serem implacáveis, mesmo que na realidade não sejam tanto assim. “Dupla Implacável” não é um filme com um protagonista obcecado por justiça ou por vingança que vai às últimas consequências para atingir seus objetivos. Definitivamente, não!

Sabe o cara careca de cavanhaque? Por incrível que pareça, é o John Travolta. Bom, para levar John Travolta na pele do espião americano Charlie Wax à Paris e não ficar parecendo que ele está varrendo gangues no Brooklin, radicalizaram no visual do ator, deixando apenas um pouco do senso de humor pretensioso americano, a dose certa pra ser divertido em Paris. Inclusive, o cinema americano deveria adotar essa dosagem, porque o excesso de pretensão no senso de humor deles é irritante.

Falando em trilha sonora, essa é boa, introduzindo o espectador à história com uma música charmosa francesa logo na primeira sequência do filme - você está em Paris, tá? -, seguindo pela projeção com sons mais pesados eletrônicos e o bom Rock’ n roll nas cenas de mais ação.

Charlie Wax (John Travolta ) chega à Paris para fazer uma parceria com o personagem engravatado e poliglota James Reece, vivido por Jonathan Rhys-Meyers, numa missão em prol da defesa da embaixada americana contra o terrorismo paquistanês. Wax é o cara da ação - como mestre Miyagi ensinou ”Wax on, Wax off” -, aquele que resolve tudo no tiro e no braço no melhor estilo 80’s, equipado com apetrechos tecnológicos do século XXI. James Reece é um agente infiltrado na Embaixada Americana que almeja ser promovido a Charlie Wax, coitado… A parceria entre os dois é no mínimo curiosa, o não menos clássico o-cara-que-pensa-e-o-cara-que-bate, embora, ao longo da projeção, ambos os personagens vão mostrando que são um pouquinho mais complexos. Só um pouquinho. Aquela profundidade que satisfaz um filme de ação.

Aliás, voltando ao título… O filme nem é “De Paris com Amor” - que título é esse?! - (From Paris With Love), nem “Dupla Implacável”. É um filme com uma boa dose de tensão que intercala boas cenas de ação - embora o recurso bullet time-Matrix usado não se encaixe no perfil do filme -, com destaque para a cena da escada em que Wax vai “limpando” o caminho para Reece subir, ótima! O roteiro não é escandalosamente óbvio a ponto de ofender o senso crítico dos menos adeptos a filmes de ação e certamente agrada àqueles que gostam de tensão, ação e umas reviravoltas na história. Mas, como um filme de ação que se preze, tem sua escorregada americana-melodramática no final, como se o longa se explicasse: “Sou um filme de ação, mas também tenho sentimentos”. Está bem, a gente acredita.

E não, não vou contar detalhes da história, senão estragaria o que há de interessante no roteiro. Filmes de ação são assim, se você conta demais, sobra só um monte de cenas de ação. Quem não curte muito esse gênero vai conseguir se divertir. Aqueles que curtem o gênero, preparem-se para ver um pouco mais que ação.


Também no: http://portalplustv.com.br/portal/cinema/critica-dupla-implacavel/