terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Diz-se que o cinema é o equilíbrio perfeito entre o real e o irreal. Que as imagens em movimento emprestam uma dose perfeita de realidade à fantasia que é a sétima arte. Mas o arrebatamento que alguns filmes causam, nos faz repensar esse equilíbrio, fazendo-nos considerar a hipótese daquela história estar acontecendo exatamente naquele momento em que estamos assistindo. Somos tocados pelos acontecimentos, sentimos o que os personagens sentem, vemos o que eles veem, da maneira que eles enxergam o mundo... E isso, nenhum recurso 3D consegue superar: essa experiência de ser capturado pela ficção, de se entregar à sua verdade irreal!


O novo longa de Darren Aronofsky, de O Lutador (2008), tem essa capacidade de colocar o espectador na pele da personagem principal, Nina, vivida por Natalie Portman, de Entre Irmãos (2009). E, de cara, já deixa suspenso no ar uma pergunta perturbadora: o que há além da perfeição, se o que é perfeito está acabado? Se a perfeição é a exclusão dos defeitos, das imperfeições, ser perfeito parece algo muito diferente de ser humano. Como não sofrer tentando não ser humano? Como não se ferir na busca obsessiva por superar os próprios limites?

Nina sofre. Sofre porque se sente o tempo todo incapaz de ser perfeita, embora empregue todo seu tempo e energia na tentativa de sê-lo. E, se considerarmos sua ocupação de bailarina, o seu sofrimento parece ainda maior. O balé, com sua disciplina rigorosa e a constante busca da perfeição, acaba se configurando como um cenário cruel para Nina. Na expectativa de conseguir a posição de destaque na companhia de balé para interpretar o cisne branco e o cisne negro, Nina se leva e nos leva ao extremo. E sua mãe, Erica Sayers (Barbara Hershey), é uma ex-bailarina que mais parece a carrasca da filha, mantendo-a num universo maternal e de um controle perverso, colaborando para as obsessões e perda da noção de realidade sofridas pela filha.

Nina apresenta sinais de distúrbios alimentares, autoflagelação e delírios, exibindo uma personalidade controladora, tensa e instável. Ela trava uma relação doentia até com a ex-bailarina principal, Beth Macintyre (Winona Ryder em participação especialíssima), por se sentir culpada ao substituí-la. Nina está sufocando, nós vamos juntos ao longo do filme. Os personagens do ótimo Vincent Cassel (Thomas Leroy) e de Mila Kunis (Lily), tentam trazer Nina para a realidade por intermédio do erotismo e do prazer, mas acabam por confundir ainda mais a bailarina, potencializando as suas paranoias.

Cisne Negro já deixa claro, na sua sombria e poderosa sequência inicial, que trata-se de uma história perturbadora. O reflexo do rosto de Nina no vidro do metrô, os closes dos pés maltratados pela dança, suas terríveis alucinações, sua angústia... Tudo faz de Cisne Negro um exemplar de terror psicológico de muita qualidade, dirigido com competência e povoado por personagens densos e inquietantes, com destaque para Natalie Portman, que se entrega física e emocionalmente ao personagem, de tal forma que nos oferece uma sensação incomodamente intensa de que Nina é real.



5 Indicações ao Oscar: Filme, Diretor, Atriz (Natalie Portman), Fotografia, Edição.

Cisne Negro (Black Swan) – 108 min
EUA – 2010
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz, John McLaughlin
Com: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder, Benjamin Millepied, Ksenia Solo




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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um Lugar Qualquer



Ter um salário de milhões e ser um astro do cinema parece um sonho para muita gente. Viver dando coletivas de imprensa, participando de premiações, tendo muitas mulheres à disposição e conforto poderia muito bem configurar o cenário deste sonho, no qual tudo pode acontecer. Ou quase nada... Johnny Marco (Stephen Dorff, de Inimigos Públicos) é um desses astros de Hollywood com uma vida confortável, cheias de festas, sexo casual e por que não? – tédio.

Enquanto dançarinas de pole dance o entretêm como se fossem animadoras de festas, Johnny demonstra todo o seu tédio cochilando durante a apresentação das moças. As festas ocorrem em sua casa, sem que ele mesmo tenha planejado isso, causando a ele um certo desconforto resignado quando chega em casa para dormir  e precisa “fazer a social” com os convidados.

A vida de Johnny não parece pertencer a ele. Em certo momento, numa de suas coletivas de imprensa, um dos jornalistas pergunta: “Quem é Johnny Marco?”. E a indagação é seguida por um silêncio constrangedor, servindo de pano de fundo para ilustrar a sua crise existencialJohnny é um personagem na sua própria vida, personagem este que ele não entende, para quem ele não olha. Ele é alguém que ele mesmo não conhece...



Mas Johnny tem uma filha de 11 anos, Cleo (Elle Fanning, de O Curioso Caso de Benjamin Button), que passa alguns dias com o pai antes de ir para o acampamento de férias. E, ao contrário do acontece em muitos filmes, nos quais um evento destes representaria a salvação milagrosa da vida moribunda do pai, a menina vai colorindo a sua vida naturalmente. Por meio de gestos cotidianos, como preparar um almoço ou jogar videogame, Cleo vai resgatando em Johnny sua figura de pai e acaba o ajudando a resgatar seu olhar sobre sua própria vida.

O filme novo de Sofia Coppola (de Maria Antonieta) segue o padrão da diretora de abordar o tédio com suavidade, questionando o modo de vida dos astros do cinema. Entretanto, a questão mais interessante permanece: o tédio está no contexto em que se vive ou no modo como uma pessoa interage  com o seu mundo? Estreia: 28 de janeiro.

Um Lugar Qualquer (Somewhere) – 97 min
EUA – 2010
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Com: Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Inverno da Alma



É preciso muita coragem para, com 17 anos de idade, um irmão de 12, uma irmãzinha de 6, uma mãe doente e um pai desaparecido, encontrar forças para enfrentar sérios problemas deixados pelo pai Jessup Dolly. Mas, Ree Dolly (Jennifer Lawrence, de Vidas que se Cruzam) parece ter essa coragem. Ou precisa ter. Membro de uma família envolvida com tráfico e consumo de drogas, Ree precisa ir em busca da verdade sobre o desaparecimento de seu pai após ser ameaçada de despejo, devido ao fato dele ter deixado a casa como garantia para pagar sua fiança da prisão. Durante sua trajetória, Ree nos guia por um cenário frio e isolado.

A vizinhança, solidária dentro do limite do medo, tenta ajudar a garota, sem muito poder contribuir. Não há tempo, nem comida, nem qualquer pessoa que possa se responsabilizar pela situação de sua família. O tio da garota, Teardrop (John Hawkes), é viciado e agressivo, a melhor amiga faz o que pode para apoiá-la, embora pouco possa fazer para ajudá-la a encontrar o pai, e os demais evitam falar sobre o assunto. O xerife pressiona Ree, os irmãos pequenos inspiram cuidados... A certa altura, já não importa tanto se Jessup está vivo ou morto e, sim, se há como provar se ele está vivo ou morto. Tendo que encarar circunstâncias tão difíceis, Ree nem tem tempo de se lamentar e arrisca a sua vida desafiando aqueles que dominam e impõe o regime do medo naquela cidade perdida no sul dos EUA.

E, exatamente por conta de sua coragem, Ree consegue sensibilizar com seus argumentos absolutamente humanos ou instinto de sobrevivência até mesmo as almas mais ásperas. Ela demonstra uma noção de realidade impressionante ao cuidar e ensinar a seus irmãos noções básicas de sobrevivência, como caçar para comer, o que só ajuda a ilustrar o realismo cru de Inverno da Alma, da diretora e roteirista Debra Granik, que, a julgar por seu filme anterior, Down to the Bone (2004), parece ter uma predileção por abordar histórias de sofrimento relacionadas ao consumo de drogas. Winter's Bone (no original) é uma história que envolve o espectador sem recursos narrativos melodramáticos e nos faz lembrar que a solução de problemas, e a nossa existência enquanto seres humanos, exige, acima de tudo, a conservação da nossa própria dignidade. Estreia: 28 de janeiro.

Inverno da Alma (Winter's Bone) – 100 min
EUA – 2010
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini – Baseado no romance de Daniel Woodrell
Com: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Valerie Richards, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, William White, Ramona Blair, Lauren Sweetser, John Hawkes


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A Última Estação




Do que é feita uma ideologia? Sem dúvidas, de ideias e de um desejo de realizá-las, de convertê-las em ações para transformar o mundo. Para o escritor russo do século XIX, Leo Tolstoy (autor de Guerra e Paz e Anna Karenina), talvez esse desejo fosse representado pela defesa da justiça social e liberdade, numa ânsia de proporcionar às pessoas o direito de serem sujeitos ativos de suas próprias vidas. Para ele, a propriedade privada aprisionava a ideia do coletivo, da igualdade de direitos, assim como as doutrinas da Igreja aprisionavam os pensamentos, distorcendo nossas concepções sobre o mundo. Tolstoy, ao longo do tempo, desenvolveu sua própria filosofia de vida, tornando-se vegetariano, defensor da não-violência, convivendo e vestindo-se como um camponês.

Entretanto, seu discurso acabava contendo algo de doutrinador, orientando, como em um manual, o modo de viver tolstoiano, deixando claro como é difícil ser idolatrado como um gênio, sem perecer da própria idolatria. Dessa forma, os tolstoianos mais radicais – como o braço direito de Tolstoy, Vladimir Chertkov (o sempre excelente Paul Giamatti, de Almas à Venda) e sua filha Sasha Tolstoy (Anne-Marie Duff) – utilizaram o discurso de seu mestre para sustentar uma doutrina baseada num certo radicalismo e intolerância em prol de sua propagação.



Leo Tolstoy construiu a sua vida e suas ideias ao lado da esposa Sofya Tolstoy (a irretocável Helen Mirren, de RED) e é justamente essa relação que expõe os seus limites ideológicos: a intenção da liberdade e amor e a prática rígida da doutrina pelos seus seguidores. Sofya questiona ferozmente Leo, numa mistura de ciúme e apreço pela estrutura e patrimônio familiares, embora o ame e admire profundamente. Leo vê-se encurralado entre sua cumplicidade de ideias partilhada com Vladimir Chertkov e seu amor e respeito por Sofya.

Nesse redemoinho de emoções e filosofia, embarca, como secretário particular de Tolstoy, Valentin Bulgakov (James McAvoy, de Desejo e Reparação). Admirador declarado de Leo, sempre cambaleante entre seu radicalismo ingênuo e sua adoração pela figura de Tolstoy, ele acaba por representar um ponto de equilíbrio nos conflitos ao longo da história, expressando uma doçura comovente. Com um elenco de tirar o fôlego, A Última Estação, de Michael Hoffman, nos presenteia com uma fração da história de Leo Tolstoy que, embora pequena, é capaz de dar a dimensão afetiva e humana das ideias desse pensador. Em sua última estação, Tolstoy sorri e nos deixa, enfim, a sua mensagem: “Tudo que sei, sei porque amo”. Estreia: 28 de janeiro.

A Última Estação (The Last Station) –112 min
Alemanha, Rússia, Reino Unido – 2009
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Michael Hoffman – Baseado no romance de Jay Parini
Com: Helen Mirren, Christopher Plummer, James McAvoy, Paul Giamatti, Anne-Marie Duff, Kerry Condon, John Sessions, Patrick Kennedy

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tron: O Legado





Como típico filme produzido pela Disney, Tron O Legado (Tron Legacy no original), é um filme para toda família, com direito a versão 3D, que, aliás, cabe bem a esse gênero de filme, embora neste as cenas não tenham sido elaboradas para explorar tanto esse recurso. Tron é visualmente empolgante, deixando bem claro a diferença entre a computação gráfica de hoje e os recursos de efeitos visuais (na época, uma inovação) do anterior Tron Uma Odisséia Eletrônica (1982) do diretor Steven Lieberg

Por ter sido feito para atingir um público variado, o roteiro não aprofunda as discussões tecnológicas (uma pena), investindo mais na relação pai Kevin Flynn (Jeff Bridges) e filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) , estruturada a partir da separação de ambos e do reencontro no universo da rede de computadores. Kevin Flynn é o diretor da Encom International (uma multinacional de softwares) e fica mais de 20 anos desaparecido depois de desenvolver uma tecnologia capaz de introduzí-lo no sistema de computadores através de um portal, abrindo uma conexão entre o mundo real e o sistema de computadores de sua empresa. No universo dos computadores, Kevin cria Clu 2.0, um clone de si mesmo para fazer o programa Tron, de Alan Bradley (Bruce Boxleitner), desenvolver a rede. 



Clu 2.0, representando todo o seu “lado mal”, exerce seu papel de liderar uma “sociedade” dentro do sistema, de forma ditatorial, com o objetivo de reabrir o portal que comunica o mundo real e o sistema, para que este domine o mundo dos usuários. Clu 2.0 deseja declarar guerra à humanidade. Kevin, que detém a chave capaz de abrir o portal, mantém-se durante todos esses anos foragido, vivendo como um monge meditando e aguardando o caos, a virada, a oportunidade de acabar com as pretensões de Clu 2.0. Quorra (Olivia Wilde, a 13 de House MD), companheira de Kevin, representa os programas ISO que surgiram naturalmente no sistema, sem terem sido programados. Sendo a última naive sobrevivente, ela é a esperança de mudar o mundo real junto com seu filho Sam, segundo as palavras do próprio Kevin. 

Partindo de um objetivo inicial dito nobre, Kevin acreditava que poderia ser Deus e recriar o mundo real de maneira perfeita a partir do universo criado por ele na rede de computadores. O problema é que objetivos megalomaníacos, como esse, podem até ser aparentemente bem-intencionados, mas acabam cedendo aos inevitáveis chamados do desejo de poder. Suas pretensões de criar um mundo perfeito, à imagem e semelhança de seu sistema, parecem mais uma forma de privar a humanidade de sua liberdade (como em qualquer ditadura) do que de gerar benefícios para ela. Estreia: 17 de dezembro.

Tron - O Legado (Tron - Legacy) - 125 min
EUA - 2010
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Com: Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Bruce Boxleitner, Olivia Wilde, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen 


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Amor por Acaso



Em sua estreia como diretor de longa-metragens, Márcio Garcia ficou à vontade para abusar dos clichês. Decidindo juntar o formato comédia romântica americano com personagens caricaturais que forçam o riso, no melhor estilo Zorra Total, o diretor não conseguiu produzir um resultado interessante. A história de Amor por Acaso (Bed and Breakfast no original) gira em torno da disputa de posse de uma propriedade na Califórnia (EUA), entre o americano Jake - o Superman Dean Cain - e a brasileira Ana - Juliana Paes, de A Casa da Mãe Joana (2008). Jake recebe a propriedade de herança de uma velha amiga e Ana, a parente mais próxima da dona falecida, tem direito sobre o imóvel. 

As justificativas que levam Ana à Califórnia não dão peso dramático e acabam dispensáveis à história, já que qualquer pessoa que recebesse uma propriedade de herança iria ao local para ficar ou providenciar a venda do imóvel. Jake é o clássico cara-bacana que tem amor pelo lugar que transformou numa pousada para ganhar a vida, naquela região rodeada de vinhedos. O ator dá conta do seu personagem e consegue nos fazer esquecer que ele já foi o Clark Kent. Juliana Paes é Juliana Paes a maior parte do tempo e a decisão de fazê-la falar inglês com uma entonação parecida com a dos americanos tornou sua atuação artificial.


Voltando ao nosso mais novo diretor, Márcio Garcia pecou pelo excesso ao mostrar as curvas de Juliana Paes incessantemente, como se dirigir um filme fosse um ato de voyeurismo vulgar, chegando ao cúmulo de fazer um cena em que Juliana sobe uma escadinha, no melhor estilo Zorra Total. Os demais personagens que compõem a parte cômica da história têm tanta graça quanto aqueles personagens do programa de TV que citei e a história se arrasta para um clímax previsível e não empolgante.  

Márcio Garcia, da próxima vez, poderia pelo menos utilizar melhor os clichês, como aquele clima irresistível que uma boa comédia romântica tem, que, mesmo previsível, comove e te segura na poltrona, além de um humor mais malandro e debochado, que os brasileiros sabem bem fazer. Ah, é bom também alguém dizer para ele que todos nós já conhecemos os atributos físicos da Juliana Paes e que vender a mulher brasileira como um objeto sexual para o mundo é algo que já deveria ter sido superado. Estreia: 10 de dezembro.

Amor por Acaso (Bed and Breakfast) - 80 min
Brasil, EUA - 2010
Direção: Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Com: Juliana Paes, Dean Cain, Eric Roberts, John Savage, Kimberly Quinn, Julia Duffy  

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O Louco Amor de Yves Saint Laurent



Julgamos loucura aquilo que não entendemos. Julgamos loucos aqueles que se diferenciam de tal forma dos padrões da sociedade, a ponto de não ser mais possível classificá-los em nenhum padrão. Alguns loucos talentosos e influentes até são aceitos, outros são relegados ao esquecimento, ao desdém. Yves Saint Laurent não se enquadra em nenhuma dessas categorias, porque não era louco. Como disse bem  Pierre Bergé, seu companheiro por 50 anos, Laurent, como artista genial que era, enxergava a sociedade sem se sentir pertencendo a ela. O estilista era um espectador atento e crítico. Por outro lado, Laurent parecia tão oprimido pelo contexto que o cercava, como parecia encantado com suas criações estilísticas produzidas numa escala que beirava a compulsividade. Ele criava como se quisesse se aliviar de alguma angústia.
Em certo momento do documentário dirigido por Pierre Thoretton, Laurent diz que lamenta não ter vivido sua juventude como ela deve ser: livre,  irresponsável e ingênua. Isso porque ele assumiu, em 1957, aos 21 anos, o lugar de Christian Dior, tornando-se uma referência instantânea da moda mundial, dedicando, assim, sua vida a esse trabalho.  E para aqueles que costumam dizer que não entendem nada de moda, eu me solidarizo. Creio que enxergamos a moda como um mercado fútil de venda de roupa cara. Na verdade, também é. Mas fica claro, nos poucos momentos em que o próprio Laurent se expressa no documentário, que as roupas, para ele, são como os quadros para Monet. E a maneira como Laurent transformava tudo que estava ao seu redor em arte de vestir é de fato admirável.
É uma pena que a sensibilidade do artista ganhe um tom melancólico durante todo o filme, reafirmando mais sua depressão que seu talento, julgando mais seu temperamento que compreendendo sua forma de olhar o mundo.  Laurent criticava seu meio social como um lugar sufocante para quem produzia alta-costura e por quem era sempre demandado originalidade e desenvoltura geniais. As várias tomadas que mostram suas casas e seus muitos objetos de decoração (que ele preferia, em lugar de pessoas) se mostraram de um certo mau gosto, dando ao documentário a impressão de ser um vídeo imobiliário. Aliás,  Pierre Bergé complementa essa impressão, sendo retratado como o apoio profissional e a pessoa encarregada de dar conta dos negócios, parecendo aliviado durante o polêmico processo de leilão das obras de arte do casal após a morte de Laurent. Estreia: 03 de dezembro.

O Louco Amor de Yves Saint Laurent (Pierre Bergé, L'amour Fou) - 104 min
França - 2010 
Direção: Pierre Thoretton

 
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domingo, 28 de novembro de 2010

Coppola e o crime organizado no RJ.



Nesse domingo de sol típico de primavera, às vésperas da pré-estreia de Tetro com a presença de Francis Ford Coppola no Rio de Janeiro, a cidade encontra-se às voltas com uma guerra civil entre o crime organizado e o Estado. Diante desse cenário, minhas emoções ficaram misturas. Não consigo parar de pensar nos dois filmes que mais amo na vida, por acaso (?) ambos do Coppola, mas também não consigo mergulhar nas lembranças das inúmeras vezes que assisti Drácula de Bram Stoker e O poderoso Chefão e esquecer do que está acontecendo na cidade. Sendo inevitável lidar, ao mesmo tempo, com minha memória cinematográfica e a preocupação em relação à realidade, acabei enxergando alguma semelhança entre ambas.
Assisti Drácula com uns 14 anos de idade e lembro que fui com meu irmão ao cinema porque gostava de filmes de terror. Para minha surpresa, descobri, ao longo daquelas 2h na sala escura, que tratava-se de uma história de amor que superava o tempo e a própria morte, embora permeada pelo ódio, colorida de sangue e impulsionada por uma necessidade de vingança pela vida roubada, pelo amor não vivido em toda sua plenitude. Assustador e sedutor ao mesmo tempo. Fiquei encantada! Assistimos duas sessões seguidas apenas pagando a primeira_ naquela época se podia fazer isso. Bons tempos!
Mais ou menos na mesma época, descobri O poderoso chefão. Era véspera de Natal e enquanto minha mãe preparava rabanadas, fui me distrair assistindo à sessão da tarde. Sabe-se lá porque razão, o filme exibido naquele dia foi O poderoso chefão III. Comecei a assistir meio sem interesse e logo estava hipnotizada pela história e pelos personagens. Comentei com o meu irmão que me disse: “Você gostou desse? Precisa ver os dois anteriores!”. Não perdi tempo, fui à locadora e aluguei as fitas (!!!) do primeiro e do segundo filmes da saga Godfather (título original).
Embora não entendesse de maneira profunda o conteúdo denso da história da família Corleone, ela me marcou da maneira que só os grandes amores podem fazer: tornou-se parte da minha história e da minha vida enquanto cinéfila. Me impressiona até hoje como os personagens e a narrativa me capturam de tal forma que me surpreendo sendo cúmplice de todos os crimes e jogos de poder em nome da manutenção daquela família ítalo-americana. Por mais que eles façam parte do crime organizado, que façam dinheiro às custas da exploração e do assassinato de outras pessoas, é impossível para mim não me comover com as tragédias que acontecem dentro da própria família Corleone. A trajetória de Michael Corleone (o Godfather que orquestra os 3 filmes) é marcada por muita dor, mortes e um enorme conflito entre razão e emoção. Michael diz: “Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade” e acrescenta: “Fazemos parte da mesma hipocrisia, mas não pense que isso se aplica a minha família”. Mas, ao longo da sua atuação enquanto chefe daquela família/organização, ele mostra-se impiedoso e brutal ao lidar até mesmo com pessoas de seu próprio sangue. No fim da sua trajetória, ele lamenta: “O que me traiu, minha mente ou meu coração?” Nesse momento, acredito que ele se perguntaria ainda: até que ponto matar os inimigos protegeu ou colocou a família ainda mais em risco? Fiz o que fiz pela família ou pelo poder? Ou não foi possível separar as duas coisas?
Pensando nesses meus dois amores cinematográficos, me deparo com a realidade do Rio de Janeiro. Vidas são roubadas, sonhos se perdem, amores são interrompidos em sangue e lágrimas, assim como na história do vampiro de Bram Stoker. Facções criminosas mantem o poder do tráfico empregando armas, violência e medo, assim como as organizações mafiosas retratadas na saga da família Corleone. E, exatamente por causa desse contexto, temos pouco acesso à história das pessoas que vivem nessas comunidades controladas pelo tráfico. Mal sabemos de suas dores, de suas dificuldades, de seus medos. Assistimos como espectadores assistem a uma tela de cinema, com o distanciamento próprio daqueles que acompanham a história de um filme. Aí me pergunto: será que não deveríamos dar mais atenção às histórias das pessoas que residem nessas comunidades (não só o complexo do Alemão, mas todo tipo de comunidade carente), no lugar de focar a atenção no espetáculo do crime organizado? Porque os espetáculos duram o tempo da projeção e depois são esquecidos pela maioria dos espectadores. Talvez seja melhor deixar alguém como o Coppola retratar o crime organizado como entretenimento e a nós caberia o papel de olhar para a realidade, para aquelas pessoas que tem seus direitos cerceados pela crime e pela negligência do Estado, tendo como testemunhas, como num filme de cinema mudo, um conjunto de pessoas sem voz chamado de sociedade.

sábado, 6 de novembro de 2010

Resenha "Minha terra, Africa"



A primeira coisa que me veio à mente, logo no início do filme, foi: o que aquela mulher branca, de aparência frágil, está fazendo sozinha num descampado isolado africano? E a pergunta permanece ao longo da projeção. Maria - a atriz francesa Isabelle Huppert, de A Professora de Piano (2001) -, diz que não se pode ter coragem na França, que viver com conforto é um estilo de vida covarde. A esse argumento ela se agarra como a um bote salva-vidas no meio do oceano e percorre toda a história de Minha terra, África, dirigido por Claire Denis, de Desejo e Obsessão (2001).  

O problema é que no seu “bote” de coragem só cabe uma pessoa - ela mesma - e sua produção de café. Numa cena interessante, um dos meninos do grupo armado rebelde encontra um objeto dourado que mais parece uma pequena barra de ouro. Mas logo descobrimos que trata-se de um mero isqueiro ao qual o líder do grupo se refere, de forma pejorativa, como White Material (título original), ou seja, coisa de branco. Nesse momento, e em vários outros, o desagrado e até o ódio dos negros com a presença dos brancos vai se revelando através de olhares, gestos e palavras. O clima é tenso e parece que só Maria se recusa a enxergar que a situação piora cada vez mais.  

O marido de Maria, André (Christopher Lambert, o eterno Highlander, gastando seu ótimo Francês), não acredita mais que é possível permanecer na fazenda, pois eles estão cada vez mais isolados e expostos a invasões dos rebeldes e ao fogo cruzado. Seu filho adolescente, Manuel (Nicolas Duvauchelle), mostra-se claramente deprimido e desorientado. Todos os negros, temendo a morte, seguem fugindo para longe. Os rebeldes rondam a região, o governo combate. Homens, meninos e meninas - filhos dos massacres, do descontentamento com a presença dos colonizadores e da história africana de guerras civis - morrem e matam. Todos estão com medo, menos Maria.  

Diz-se que o medo é o que regula a coragem como forma de auto-preservação, mas parece que Maria se alimenta mais de coragem que de medo. Uma coragem em defesa do seu próprio conceito de coragem (viver fora do conforto) e do produto do seu trabalho, o café. O mundo desmorona a sua volta, mas ela tem coragem. Só que quando a coragem não é usada para defender pessoas, e sim como uma atitude teimosa e alienada, ela pode ser tão letal quanto uma espingarda. Minha terra, África é um longa de ficção com jeito de documentário, com câmera lenta contemplando os cantos daquela fazenda, as pessoas... Mas a pergunta inicial permanece, não porque não sabemos as razões dos brancos estarem na África, visto que muitos já até são cidadãos de lá. A questão é outra: África, terra de quem? Estreia: 05 de novembro.

Minha Terra, África (White Material) - 106 min
França, Camarões - 2009
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Marie N´Dianye, Lucie Borleteau
Com: Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, Isaach de Bankolé, William Nadylam

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sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha "Sentimento de culpa"

A culpa é um sentimento que habita o universo do castigo. Quando alguém diz: “Menino, você comeu o bolo todo! Devia se envergonhar!”, pronto, a culpa ganhou vida, forma e importância. O menino vai se sentir humilhado ou não, vai comer o próximo bolo inteiro de novo ou não. Mas vai guardar o aprendizado de que há coisas que não se deve fazer, mesmo sem entender bem o porquê. E se essa mesma pessoa advertisse: “Menino, você comeu o bolo todo! Os outros meninos têm o mesmo direito que você. Isso está errado!”. Será que esse aprendizado semearia também a culpa ou ajudaria a construir a consciência do que é certo? Será que ter a consciência do que é certo ou errado também não seria uma forma de culpa?

Fazer o que é certo tem como referência nossos valores morais, nossa estrutura social. E, em geral, fazer o certo demanda um equilíbrio entre o que nós desejamos individualmente e aquilo que é bom para todos. Nesse contexto, há pessoas como a personagem Kate, vivida pela excelente Catherine Keener, que levam a culpa muito a sério e carregam um bloco de concreto nas costas, utilizando esse sentimento para alimentar um outro: a própria melancolia representada pela impressão de que ser feliz é uma manifestação de egoísmo.

O problema é que Kate, junto com seu marido Alex (o ótimo Oliver Platt) vivem de comprar móveis e objetos de decoração, por preços baixos, de pessoas recém-falecidas, e vendê-los por preços bem mais elevados - o que soa meio tragicômico e bem cínico. Kate faz lucro com a desgraça alheia, mas sofre e tenta compensar fazendo caridade. Em contraponto, a personagem de Amanda Peet, Mary, utiliza de uma sinceridade neurótica e agressiva para se livrar da culpa que as mentiras produzem. Ela se mostra fria e amoral, jogando a culpa de suas frustrações no resto do mundo, principalmente sobre a avó ranzinza Andra (Ann Guilbert), vizinha de Kate e Alex. Enquanto Kate disfarça sua culpa como solidariedade, Mary utiliza a culpa como ressentimento.

E os personagens de Sentimento de Culpa, da diretora Nicole Holofcener - de Amigas com Dinheiro (2006) - vão desfilando suas vidas cotidianas, ornamentadas com suas pequenas ou grandes culpas. Um relato delicado e bem focado na natureza humana e seus conflitos, com um humor bem sutil e ácido, caracterizando-se mais como drama do que como comédia, com um excelente elenco. Em certo momento do filme, me perguntei até que ponto somos conectados uns aos outros através da culpa, em vez do amor. Talvez se importar demais com os outros ou consigo mesmo seja, de qualquer maneira, uma forma de demonstrar mais ou menos amor. No fim, somos todos culpados ou culpamos alguém pelas nossas derrotas ou por nossas vitórias, por sermos amados ou não, por sermos felizes ou não. Estreia: 29 de outubro.

Sentimento de Culpa (Please Give) - 90 min
EUA - 2010
Direção: Nicole Holofcener
Roteiro: Nicole Holofcener
Com: Rebecca Hall, Elizabeth Keener, Elise Ivy, Catherine Keener, Josh Pais, Amanda Peet, Oliver Platt, Ann Guilbert

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sábado, 7 de agosto de 2010

A origem



Afinal, por que sonhamos?
Os sonhos, aqueles episódios diários orquestrados pelo nosso subconsciente, diz-se que tem por função organizar nossas ideias. Nós vivemos, experimentamos decisões, fazemos escolhas, corremos de um lado para o outro... E quando repousamos nossa noção de realidade no travesseiro, tudo por que passamos é, em teoria, revisado numa espécie de limpeza, onde nossos resíduos imaginários-sinápticos são varridos para longe da nossa consciência. Mas, para que isso? Talvez para nos manter sãos no mundo real.
Os sonhos, aqueles objetivos que mantemos em mente enquanto estamos acordados e que nos empenhamos em realizar, não são muito diferentes. Quando acordados, nós costumamos fazer uma seleção daquilo que desejamos, descartando, mesmo que temporariamente, outras possibilidades. Nos concentramos nos nossos sonhos afim de que sejam realizados. E quando testemunhamos diante de nossos olhos o resultado do nosso esforço, somos tomados por um estado de plenitude e esvaziamento concomitantes. Aquela completude breve seguida da constatação do reinício inevitável. A nossa liberdade de sonhar, tão doce, tão almejada sempre, se converte na angústia da realização do sonho que, por sua vez, nos projeta adiante. Sempre... O desejo concretizado é o vazio da realidade que clama por um novo sonho, como um copo vazio nas mãos de um sedento. 

Talvez, a diferença entre a realidade e sonho seja o limite tênue entre o impulso inicial e o fim abrupto, que se distanciam por um universo inteiro e por um nada. E esse espaço vazio e cheio ao mesmo tempo, seria um limbo ao qual nos remetemos de tempos em tempos quando tentamos converter nossa realidade em sonho ou fazer dos nossos sonhos uma realidade.
Não sei...


domingo, 16 de maio de 2010

Resenha: Fonte da vida (The Fountain)

A “árvore da vida” e a “árvore da sabedoria”.Izzi (Rachel Weisz) e Tommy (Hugh Jackman). Eva provou do fruto da sabedoria e a ela e Adão foi negado o fruto da vida, assim Izzi fala sobre a finitude humana que tanto procuramos desvendar e até superar.
Encantadora, Izzi é encantada pela ideia de que tudo o que existe constitui a mesma matéria e possibilidades infinitas de manifestação de vidas: “Se ao morrer, você for enterrado junto à semente de uma árvore, um dia o fruto dessa árvore será alimento de um pássaro. Você voará com ele.”, ela diz a Tommy resignada. Izzi acredita que pode voar: “I'm not afraid anymore”(eu não tenho mais medo), ela confessa.
De sua “árvore da sabedoria”, Tommy se alimentou a vida toda e não admite não ter o conhecimento necessário para curar Izzi de sua enfermidade. Ele é um bravo conquistador, como ela mesma o chama, incansável, porém distante em sua busca pela negação da morte. Não se pode lutar contra a natureza das coisas e compartilhar a compreensão dessa mesma natureza ao mesmo tempo, não é? Izzi diz: “Finish it” (termine), mas ela não está falando do experimento do laboratório de Tommy, ela fala do sofrimento dele de se sentir impotente diante da morte eminente dela. “Finish it” poderia ser “Understand it”(compreenda), mas aí não seria entendimento, seria convencimento.
Izzi quer que Tommy veja com seus próprios olhos um pouco mais além. Quer que Tommy assuma sem constrangimento suas limitações enquanto ser humano e cientista e também compreeenda seu potencial infinito de fazer parte da vida em si, do significado da vida, do estar presente, do estar perto...dela e de todos ao seu redor.

Izzi sabe, com uma paz invejável, que quando se perde a esperança, perde-se o medo e evita-se a decepção. Sabe que ter esperança é como se projetar para o futuro, negando o valor do presente. E o futuro é nada mais que um tempo ainda não vivido. Mas essa ideia não nega a importância dos sonhos, embora eles existam para durar uma só noite e alimentar o presente que nos é oferecido todos os dias. Para Izzi, a vida é agora e o amor transcende esse invólucro temporal que nos aprisiona.


Fonte da vida (The fountain
)
EUA , 2006 .

Direção:
Darren Aronofsky_ o mesmo diretor de "O lutador" (The Wrestler)- 2008 e "Réquiem para um sonho" (Requiem For a Dream)- 2000.

Roteiro:
Darren Aronofsky e Ari Handel

Elenco:
Hugh Jackman, Rachel Weisz, Marcello Bezina, Alexander Bisping, Ellen Burstyn, Cliff Curtis, Sean Gullette, Mark Margolis, Donna Murphy, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas



sexta-feira, 30 de abril de 2010

A grade festa.

Pessoa suspeita pra falar... Eu sou incondicionalmente apaixonada pela comida italiana. Não só pelos sabores do azeite, do manjericão, dos molhos, das massas... Mas também por toda a cultura e as simbologias que essa comida representa. Não é à toa que não estou usando o termo “culinária” e sim comida, porque italiano aplica paixão e delicadeza combinadas para modelar as massas, temperar os molhos, mantendo um contato orgânico constante com os alimentos que prepara_ amo isso! Uma sofisticação caseira de quem está preparando comida para sua amada família. Daí se fazem refeições generosas, saborosas e calorosas. Eu me sinto acolhida e feliz debruçada sobre um prato de comida italiana numa cantina típica.

No filme “A grande noite”, dois irmãos italianos emigram para os EUA buscando uma oportunidade de prosperar fazendo o que eles sabem fazer de melhor: comida! Mas, o restaurante deles em Nova Iorque não vai muito bem. Com um cardápio e um ambiente seguindo as tradições italianas, o lugar não atraia a clientela americana interessada em pratos mais adaptados aos hábitos alimentares locais. Isso fica evidente logo no início do filme no embate entre uma cliente insatisfeita com um risoto e Primo (Tony Shalhoub) o chef de cozinha. Dotado de talento para preparar uma típica e deliciosa comida italiana, Primo se recusa a se curvar aos hábitos americanos, considerando sua arte uma forma de “educar” seus clientes na apreciação da verdadeira cucina italiana, deixando claro seu desprezo pelos hot dogs. Por outro lado, seu irmão Secondo (Stanley Tucci), seduzido pelos valores locais e desejando enriquecer, tenta convencer Primo a se adaptar. A relação dos irmãos, embora muito conflituosa, é extremamente amorosa e indissolúvel, como toda família deve ser. Entre problemas e panelas, o filme segue delicioso...

Ao contrário do longa dinamarquês “A festa de Babette” (frio e monótono), “A grande noite” é um filme que nos seduz desde o inicio, o que me fez lembrar daquela cena de “O Poderoso Chefão 3” (Francis Ford Copolla) em que os apaixonados personagens de Sofia Copolla e Andy Garcia preparam nhoque juntos com uma sensualidade sutil, conferindo às relações humanas daquela história um ar familiar e saboroso em contraste com a violência da máfia. “A grande noite” dos diretores Campbell Scott e Stanley Tucci passeia pelas tradições americana e italiana, fazendo contrapontos a todo momento, ao mesmo tempo em que demonstram a riqueza da interação entre as duas culturas. Destaque para o extravagante e ambíguo Pascal (Ian Holm) que nos presentei com as cenas mais cômicas do longa, Bob (Campbell Scott) um vendedor de carro cara de pau e a sempre molto bella Isabella Rossellini.

O único problema desse filme é o espectador não poder participar do banquete servido na grande festa que tem por intenção livrar o restaurante da falência, mas que acaba mesmo é nos deixando com água na boca. Recomendo assistir ao filme e partir logo depois para a cantina italiana mais próxima.


*Esse filme foi exibido hoje na Casa da Ciência-UFRJ, fazendo parte da programação do Colóquio Educação, Alimentação e Cultura promovido pela instituição. http://www.nutes.ufrj.br/coloquio/

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Sonhos roubados"

Noutro dia conversava com um amigo a respeito da situação do cinema nacional, a quantidade insuficiente de salas exibindo os filmes brasileiros e a resistência do público a ir ao cinema assistir um filme nacional.

Refletindo sobre as razões desse panorama, fiquei imaginando o que leva as pessoas a uma sala de cinema. Acredito que uma parcela grande do público que vai ao cinema, busca entretenimento, aquele faz-de-conta de 2h onde se pode ser um policial durão, um aventureiro, uma pessoa apaixonada, um vilão caricato, um mocinho meloso... Pode-se viver paixões, amores rasgados, medos, angústias, pode-se voar, chorar, rir, estar no presente, no passado ou no futuro sem sair do lugar, sem consequências. E assim que as luzes da sala acendem, pode-se despir aqueles personagens e seguir a vida carregando um pouco daquelas vivências imaginárias consigo. Diante disso, consigo compreender as pessoas que não pagam ingresso (caro, aliás) para assistir o mesmo que se vê todos os dias no noticiário: violência, tráfico, tiros, tensão... Sem querer desmerecer os filmes que ajudaram a revitalizar o cinema brasileiro, pois alguns são de uma qualidade inquestionável_ como o “Cidade de Deus” por exemplo_ embora tragam uma crueza real e indigesta que as pessoas tem o direito de não escolher como entretenimento. Esses filmes representam uma abordagem necessária da realidade social do Brasil sim, mas hoje o filme “Sonhos roubados” me confirmou que existem outras formas de se falar de realidade.

A história guiada pela diretora Sandra Werneck (Cazuza-O tempo não pará) retrata a vida de três adolescentes (Jéssica, Daiane e Sabrina) da periferia do Rio de Janeiro que, por circunstâncias diversas, acabam se envolvendo com prostituição. O filme fala sobre isso não de um jeito banal e se preocupa em oferecer o pano de fundo que conduz essas meninas a vender sua intimidade em troca de dinheiro para pagar conta, sustentar filho ou até mesmo comer. Naquele ambiente falta tudo, menos a capacidade dessas meninas de sonhar. Fala-se de assuntos densos, incômodos, mas com uma delicadeza feminina que faz toda a diferença. Mesmo inseridas numa cultura que banaliza o sexo_ em especial o movimento do funk_, sem perspectivas, sem estrutura familiar, educacional ou de saúde etc, Jéssica, Daiane e Sabrina encontram na amizade entre elas um apoio para preservar a esperança por dias melhores no futuro. Tudo na vida delas é difícil, mas elas não nos inspiram pena, elas nos cativam com suas trajetórias humanas, demasiado humanas.

Talvez, temas como os tratados em “Sonhos Roubados' devessem receber sempre esse toque de delicadeza para que se possa conseguir um equilíbrio entre crítica social e arte cinematográfica. Ganha o filme em audiência e qualidade, ganha o espectador em cinema e entretenimento.


*Estréia 23 de Abril de 2010.


Trailer:



Para ouvir essa música maravilhosa na íntegra (ótimo uso da batida do funk):



Para baixar:
http://www.4shared.com/file/256131614/ff98f432/Maria_Gad_-_Sonhos_Roubados__T.html

terça-feira, 13 de abril de 2010

Breve oração excepcional.

"Só o Rock N' Roll Salva! Rock n' Roll que estais em chamas, abominado sejam os vossos nomes, venha a nós o vosso pub, seja feita a vossa gostosa maldade, assim em festivais, bares e quintais. O "Riff" nosso de cada dia nos dai "moshes", perdoais as nossas ofensas assim como nós perdoamos funks, rebolations e sertanejos, e não nos deixeis cair em alienação, mas livrai-nos do Nhem. Amém! Yeah!"
(por Alexandre Soma www.alexandresoma.com)

domingo, 11 de abril de 2010

Trailer "Persona"

Minha primeira vez com Bergman

Para alguns isso pode soar estranho, para outros normal. O fato é que até a última sexta-feira eu nunca havia visto nenhum filme de Ingmar Bergman. Não por descaso ou desgosto... Não aconteceu antes, essas coisas da vida. Claro, não tenho formação em cinema, não sou pesquisadora da sétima arte, nem mergulhei nos clássicos antes de começar a gostar de assistir filmes. Meu amor pelo cinema_ sentimento tranquilo, paciente e pleno que é_ jamais me fez afoita e desesperada. Fui me deixando levar pelos filmes mais simples, aqueles de sessão da tarde... Depois passei a devorar todas as fitas da videolocadora até que não restasse nada novo que eu não tivesse visto. E, num movimento natural, comecei a me interessar pelos filmes mais originais_no sentido de origem e de originalidade_, pelos diretores mais destacados, pelos atores mais performáticos... Enfim, quando me dei conta, não podia mais viver sem o cinema.

E como os filmes reacendem eternamente a paixão no plácido sentimento de amar a sétima arte, toda vez que me apaixono por um, me entrego ao entusiasmo e à contemplação... Foi o que, aliás, também aconteceu quando assisti “Ilha do Medo”, cujas qualidades descreverei em outra ocasião, porque me proponho a falar de Bergman hoje. Mais especificamente sobre “Persona”. Então porque falei do filme do Scorcese? Pelo fato de que ambos os longas falam de sanidade e loucura de maneira hipnotizante.

Persona” estava na minha lista de pretendidos há algum tempo, mas todo filme tem seu momento certo. Tenho certeza que não teria degustado com tal prazer se o tivesse visto antes. Um cineasta que introduz você no universo do filme e dele próprio, antes da história começar, merece, no mínimo, 2h da nossa atenção. Para situar o expectador na insanidade da narrativa, Bergman usou imagens perturbadoras e desconexas antes do filme. Quando este começa, nós já estamos prontos para pirar juntos com a personagem_ ou as personagens? A trilha sonora opressora e os enquadramentos quase 3x4 sufocam, nos desestabilizam., encantam. Fora os diálogos que são de uma riqueza de entrega dos receios e dramas mais íntimos daquelas pessoas passeando pela tela. O preto e branco traz luz e escuridão, tão belos e perfeitos para prender nossa atenção ao que interessa.

Ainda não conheço bem Ingmar Bergman para dizer que terei por ele um amor eterno, mas digo com toda certeza que na minha primeira vez com ele, eu me apaixonei.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Uma noite fora de série

Quem disse que vida de adulto tem que ser chata? Numa proporção maior ou menor, todos nós! Mais ou menos dos 15 aos 30 anos somos alvejados com expectativas que incluem carreira, família, dinheiro, blá-blá-blá. Você tem que ter um bom emprego, ganhar bem, ter lindos filhinhos de bochechas rosadas. Tenta fazer diferente pra ver. Você precisa crescer, amadurecer, assumir responsabilidades, ou seja, virar um chato de galocha_ adoro essa expressão.

É exatamente diante desse dilema que se encontra o casal Phil (Steve Carell, de “Agente 86”) e Claire (Tina Fey, da série “30 Rock”) Foster. Com empregos tradicionais e rentáveis, dois filhos pequenos e saudáveis e um casamento pra lá de estável _quase estático_ e um dia-a-dia corrido, os Fosters se veem numa crise de tédio. Para quebrar o gelo da relação, Claire decide caprichar no visual e o casal vai num badalado restaurante no centro da cidade. È a partir daí que a confusão se inicia. Sem reservas no restaurante, eles fingem ser o casal Tripplehorn para conseguirem uma mesa. Eles só não poderiam imaginar que os Tripplehorns estavam sendo procurados pelo chefão do crime da cidade. Seguem-se, então, sequências ligeiramente tensas e de humor mais sutil, que a partir do meio do filme, se transformam em cenas mais cômicas_ um humor cínico, pouco escrachado_ e ágeis, com destaque para a perseguição de carro (sensacional!) e a dança do clube noturno (hilário!). Entre risos e as fugas do casal, o filme introduz algumas DRs na história, sempre com discussões breves com as quais todas as pessoas que já tiverem um relacionamento mais longo vão se identificar e rir de si mesmas. Lembra bastante a história de “Os Normais 2-A noite mais louca de todas”, sendo que Vani e Ruy são, de longe, muito menos família, se é que me entendem...

No fim das contas, o diretor Shawn Levy (“Uma noite no Museu”) conduz um filme que fala de relacionamento de maneira que o espectador não ache chato. Além do mais, o roteiro de Josh Klausner (“Shrek para sempre”) sugere que fazer do dia-a-dia algo mais emocionante pode ser mais simples do que se imagina_ concordo. Só cuidado pra não exagerar nas extravagâncias para não ir do adulto chato à criança quebrando vidraça da casa do vizinho...

Participações para lá de especiais de Mark Ruffalo (“Ilha do Medo”) com seu carisma rotineiro, Mark Wahlberg (“Max Payne”) com seus músculos definidos, Ray Liota (“Território Restrito”) com seu convincente bad guy e de James Franco (“Homem Aranha 3”) quase irreconhecível.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Respeitável público!

Não sou fã de Rock, de banda ou qualquer cantor ou artista. Tirando minha admiração particular pela Cássia Eller, que dá show agora em outro plano astral, curto Rock como quem curte qualquer boa música de sua preferência. E considero os shows de Rock os mais espetaculares, especialmente pela força do som e aquele faz-de-conta-que-sou-rebelde, personagem muito divertido que adoro interpretar.
Entretanto, é lamentável que o show do Guns and Roses ontem na Apoteose tenha sido desperdiçado pelo atraso de 2h30min no melhor estilo “foda-se” de ser. Sem justificativa, sem satisfação ao público. Nada foi dito. O Sebastian Bach que veio abrir o evento deu um show de verdade: o cara era pura disposição, simpatia e vontade de zoar com a galera. Interação total público-artista, satisfação para todos. O público reconheceu o empenho do Sebastian, aplaudindo muito no fim do show. Um espetáculo!
Mas, após a saída de Sebastian do palco, o tédio, o cansaço e a irritação abateram o público presente que iniciou uma constante e justa vaia coletiva, xingamento em coro etc. Afinal, ninguém tinha que trabalhar hoje, todos podiam esperar a noite inteira até que o Guns achasse que era hora de dar às caras, né? Fiquei extremamente irritada porque o show tinha tudo pra ser incrível, mas na hora que começou, as pessoas estavam tão cansadas que queriam mais era ir pra casa dormir. E muitas abandonaram o show antes de começar e ao longo do mesmo. Platéia fria, show frio. O som estava impecável, as luzes, cenário... Tudo como deveria ser. Mas, já era tarde. Literal e figurativamente. O descaso escroto da banda estragou uma noite que poderia ter sido memorável.
Aos fanáticos imbecis que vierem dizer que quem não aguenta, não vai a show de Rock, eu digo: fui no U2 em SP, ida e volta no mesmo dia, fiquei no estádio das 15h às 22h para ver o show dos caras e eles tiveram o RESPEITO de iniciar o show pontualmente. Palmas pra eles! Showzaço!Porque o que cansa/irrita/frustra não é a espera, e sim não saber sequer se vai assistir ao show. Se ser fã é dar a cara pra bater e ainda achar que merece, prefiro continuar meu itinerário de apreciadora apartidária da música.
Respeitável público, os caras do Guns foram, ontem, um bando de palhaços!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sede de Sangue.

Filme de vampiro que se preze tem que ter sangue. Não uma cachoeira trash e tão pouco somente umas gotinhas tímidas escorrendo no canto da boca do predador. Tem que ter aquela quantidade certa que torna o vampiro repulsivo e magnetizante, afinal, quem não sente medo de um humano sobrenatural sanguessuga e, ao mesmo tempo, consegue não ficar hipnotizado para um vermelho vibrante? No caso do filme do diretor e co-roteirista Chan-wook Park (o mesmo de Oldboy), o vermelho sanguíneo é utilizado na medida certa para colorir os cenários pálidos do início da história e contrastar com o fundo branco recorrente e o figurino em tons de preto e azul dos protagonistas_ destaque para os belos tons de azul dos vestidos de Tae-joo, personagem da atriz Ok-vin Kim_ no terço final.

Sang-hyeon (vivido por Kang-ho Song) é um padre coreano que trabalha junto a um hospital, orientando espiritualmente aqueles à beira da morte e seus parentes. Sang-hyeon, além de atuar nesta fronteira entre a vida e a morte, transita numa outra fronteira ainda mais complexa: aquele deserto sem lar que separa a ciência da religião. Sang-hyeon acredita que a ciência está a serviço de Deus e que seu rebanho deve rezar e tomar todos os remédios prescritos. O padre acredita na fé, mas não acredita em milagres. Diante dessa contradição, numa decisão auto-flagelativa, se oferece de cobaia a um experimento que busca a cura de uma doença infecciosa e, durante o processo, acaba virando vampiro.

Bem, quem gosta de vampiros sabe que o sangue vampirizante não tem uma explicação lógica, uma origem conhecida ou uma referência estritamente sobrenatural. Diz-se que a Porfiria, uma doença sanguínea rara, estaria por trás da lenda vampiresca. Especulações draculescas à parte, o sangue do vampiro tem o poder de transformar outros humanos em vampiros. Aliás, ser vampiro é uma condição de deixar de ser humano? Questão sempre presente nesses filmes, nunca respondida. Uma criatura que vive nas sombras, bebendo sangue pra “viver”encontra-se também numa fronteira entre vida e morte. E o padre segue seu martírio... Angustiado e cheio de culpa por ter desenvolvido seus instintos e aguçado seus desejos acaba, naturalmente, se apaixonando por Tae-joo_ jovem de fragilidade duvidosa. O padre perdido do seu rebanho se depara com um lobo em pele de cordeiro e se entrega.

Na forma realista e orgânica de tratar a sexualidade e a exposição das entranhas, “Sede de Sangue” lembra muito o longa “Deixa ela entrar”, embora o filme sueco tenha todo um jeito de obra de arte cinematográfica. A sonoplastia faz tudo parecer muito suculento, se é que me entendem.... A saga de contradições do padre-vampiro tem um conteúdo dramático e filosófico muito bom, belas cenas do típico tesão-reprimido-oriental que fazem o expectador querer estar em outro lugar e sequências que misturam um quê de macabro e humor negro que agrada em cheio os amantes desses conteúdos. Aliás, como bom filme de vampiro, segue-se uma história de amor e, por este sentimento, mata-se e morre-se.

Filme ótimo para os que se deliciam com uma obra vampiresca realista de amor-terror e não muito indicado para aqueles mais sensíveis, adeptos dos filmes de sessão da tarde.