terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Última Estação




Do que é feita uma ideologia? Sem dúvidas, de ideias e de um desejo de realizá-las, de convertê-las em ações para transformar o mundo. Para o escritor russo do século XIX, Leo Tolstoy (autor de Guerra e Paz e Anna Karenina), talvez esse desejo fosse representado pela defesa da justiça social e liberdade, numa ânsia de proporcionar às pessoas o direito de serem sujeitos ativos de suas próprias vidas. Para ele, a propriedade privada aprisionava a ideia do coletivo, da igualdade de direitos, assim como as doutrinas da Igreja aprisionavam os pensamentos, distorcendo nossas concepções sobre o mundo. Tolstoy, ao longo do tempo, desenvolveu sua própria filosofia de vida, tornando-se vegetariano, defensor da não-violência, convivendo e vestindo-se como um camponês.

Entretanto, seu discurso acabava contendo algo de doutrinador, orientando, como em um manual, o modo de viver tolstoiano, deixando claro como é difícil ser idolatrado como um gênio, sem perecer da própria idolatria. Dessa forma, os tolstoianos mais radicais – como o braço direito de Tolstoy, Vladimir Chertkov (o sempre excelente Paul Giamatti, de Almas à Venda) e sua filha Sasha Tolstoy (Anne-Marie Duff) – utilizaram o discurso de seu mestre para sustentar uma doutrina baseada num certo radicalismo e intolerância em prol de sua propagação.



Leo Tolstoy construiu a sua vida e suas ideias ao lado da esposa Sofya Tolstoy (a irretocável Helen Mirren, de RED) e é justamente essa relação que expõe os seus limites ideológicos: a intenção da liberdade e amor e a prática rígida da doutrina pelos seus seguidores. Sofya questiona ferozmente Leo, numa mistura de ciúme e apreço pela estrutura e patrimônio familiares, embora o ame e admire profundamente. Leo vê-se encurralado entre sua cumplicidade de ideias partilhada com Vladimir Chertkov e seu amor e respeito por Sofya.

Nesse redemoinho de emoções e filosofia, embarca, como secretário particular de Tolstoy, Valentin Bulgakov (James McAvoy, de Desejo e Reparação). Admirador declarado de Leo, sempre cambaleante entre seu radicalismo ingênuo e sua adoração pela figura de Tolstoy, ele acaba por representar um ponto de equilíbrio nos conflitos ao longo da história, expressando uma doçura comovente. Com um elenco de tirar o fôlego, A Última Estação, de Michael Hoffman, nos presenteia com uma fração da história de Leo Tolstoy que, embora pequena, é capaz de dar a dimensão afetiva e humana das ideias desse pensador. Em sua última estação, Tolstoy sorri e nos deixa, enfim, a sua mensagem: “Tudo que sei, sei porque amo”. Estreia: 28 de janeiro.

A Última Estação (The Last Station) –112 min
Alemanha, Rússia, Reino Unido – 2009
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Michael Hoffman – Baseado no romance de Jay Parini
Com: Helen Mirren, Christopher Plummer, James McAvoy, Paul Giamatti, Anne-Marie Duff, Kerry Condon, John Sessions, Patrick Kennedy

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tron: O Legado





Como típico filme produzido pela Disney, Tron O Legado (Tron Legacy no original), é um filme para toda família, com direito a versão 3D, que, aliás, cabe bem a esse gênero de filme, embora neste as cenas não tenham sido elaboradas para explorar tanto esse recurso. Tron é visualmente empolgante, deixando bem claro a diferença entre a computação gráfica de hoje e os recursos de efeitos visuais (na época, uma inovação) do anterior Tron Uma Odisséia Eletrônica (1982) do diretor Steven Lieberg

Por ter sido feito para atingir um público variado, o roteiro não aprofunda as discussões tecnológicas (uma pena), investindo mais na relação pai Kevin Flynn (Jeff Bridges) e filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) , estruturada a partir da separação de ambos e do reencontro no universo da rede de computadores. Kevin Flynn é o diretor da Encom International (uma multinacional de softwares) e fica mais de 20 anos desaparecido depois de desenvolver uma tecnologia capaz de introduzí-lo no sistema de computadores através de um portal, abrindo uma conexão entre o mundo real e o sistema de computadores de sua empresa. No universo dos computadores, Kevin cria Clu 2.0, um clone de si mesmo para fazer o programa Tron, de Alan Bradley (Bruce Boxleitner), desenvolver a rede. 



Clu 2.0, representando todo o seu “lado mal”, exerce seu papel de liderar uma “sociedade” dentro do sistema, de forma ditatorial, com o objetivo de reabrir o portal que comunica o mundo real e o sistema, para que este domine o mundo dos usuários. Clu 2.0 deseja declarar guerra à humanidade. Kevin, que detém a chave capaz de abrir o portal, mantém-se durante todos esses anos foragido, vivendo como um monge meditando e aguardando o caos, a virada, a oportunidade de acabar com as pretensões de Clu 2.0. Quorra (Olivia Wilde, a 13 de House MD), companheira de Kevin, representa os programas ISO que surgiram naturalmente no sistema, sem terem sido programados. Sendo a última naive sobrevivente, ela é a esperança de mudar o mundo real junto com seu filho Sam, segundo as palavras do próprio Kevin. 

Partindo de um objetivo inicial dito nobre, Kevin acreditava que poderia ser Deus e recriar o mundo real de maneira perfeita a partir do universo criado por ele na rede de computadores. O problema é que objetivos megalomaníacos, como esse, podem até ser aparentemente bem-intencionados, mas acabam cedendo aos inevitáveis chamados do desejo de poder. Suas pretensões de criar um mundo perfeito, à imagem e semelhança de seu sistema, parecem mais uma forma de privar a humanidade de sua liberdade (como em qualquer ditadura) do que de gerar benefícios para ela. Estreia: 17 de dezembro.

Tron - O Legado (Tron - Legacy) - 125 min
EUA - 2010
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Com: Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Bruce Boxleitner, Olivia Wilde, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen 


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Amor por Acaso



Em sua estreia como diretor de longa-metragens, Márcio Garcia ficou à vontade para abusar dos clichês. Decidindo juntar o formato comédia romântica americano com personagens caricaturais que forçam o riso, no melhor estilo Zorra Total, o diretor não conseguiu produzir um resultado interessante. A história de Amor por Acaso (Bed and Breakfast no original) gira em torno da disputa de posse de uma propriedade na Califórnia (EUA), entre o americano Jake - o Superman Dean Cain - e a brasileira Ana - Juliana Paes, de A Casa da Mãe Joana (2008). Jake recebe a propriedade de herança de uma velha amiga e Ana, a parente mais próxima da dona falecida, tem direito sobre o imóvel. 

As justificativas que levam Ana à Califórnia não dão peso dramático e acabam dispensáveis à história, já que qualquer pessoa que recebesse uma propriedade de herança iria ao local para ficar ou providenciar a venda do imóvel. Jake é o clássico cara-bacana que tem amor pelo lugar que transformou numa pousada para ganhar a vida, naquela região rodeada de vinhedos. O ator dá conta do seu personagem e consegue nos fazer esquecer que ele já foi o Clark Kent. Juliana Paes é Juliana Paes a maior parte do tempo e a decisão de fazê-la falar inglês com uma entonação parecida com a dos americanos tornou sua atuação artificial.


Voltando ao nosso mais novo diretor, Márcio Garcia pecou pelo excesso ao mostrar as curvas de Juliana Paes incessantemente, como se dirigir um filme fosse um ato de voyeurismo vulgar, chegando ao cúmulo de fazer um cena em que Juliana sobe uma escadinha, no melhor estilo Zorra Total. Os demais personagens que compõem a parte cômica da história têm tanta graça quanto aqueles personagens do programa de TV que citei e a história se arrasta para um clímax previsível e não empolgante.  

Márcio Garcia, da próxima vez, poderia pelo menos utilizar melhor os clichês, como aquele clima irresistível que uma boa comédia romântica tem, que, mesmo previsível, comove e te segura na poltrona, além de um humor mais malandro e debochado, que os brasileiros sabem bem fazer. Ah, é bom também alguém dizer para ele que todos nós já conhecemos os atributos físicos da Juliana Paes e que vender a mulher brasileira como um objeto sexual para o mundo é algo que já deveria ter sido superado. Estreia: 10 de dezembro.

Amor por Acaso (Bed and Breakfast) - 80 min
Brasil, EUA - 2010
Direção: Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Com: Juliana Paes, Dean Cain, Eric Roberts, John Savage, Kimberly Quinn, Julia Duffy  

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O Louco Amor de Yves Saint Laurent



Julgamos loucura aquilo que não entendemos. Julgamos loucos aqueles que se diferenciam de tal forma dos padrões da sociedade, a ponto de não ser mais possível classificá-los em nenhum padrão. Alguns loucos talentosos e influentes até são aceitos, outros são relegados ao esquecimento, ao desdém. Yves Saint Laurent não se enquadra em nenhuma dessas categorias, porque não era louco. Como disse bem  Pierre Bergé, seu companheiro por 50 anos, Laurent, como artista genial que era, enxergava a sociedade sem se sentir pertencendo a ela. O estilista era um espectador atento e crítico. Por outro lado, Laurent parecia tão oprimido pelo contexto que o cercava, como parecia encantado com suas criações estilísticas produzidas numa escala que beirava a compulsividade. Ele criava como se quisesse se aliviar de alguma angústia.
Em certo momento do documentário dirigido por Pierre Thoretton, Laurent diz que lamenta não ter vivido sua juventude como ela deve ser: livre,  irresponsável e ingênua. Isso porque ele assumiu, em 1957, aos 21 anos, o lugar de Christian Dior, tornando-se uma referência instantânea da moda mundial, dedicando, assim, sua vida a esse trabalho.  E para aqueles que costumam dizer que não entendem nada de moda, eu me solidarizo. Creio que enxergamos a moda como um mercado fútil de venda de roupa cara. Na verdade, também é. Mas fica claro, nos poucos momentos em que o próprio Laurent se expressa no documentário, que as roupas, para ele, são como os quadros para Monet. E a maneira como Laurent transformava tudo que estava ao seu redor em arte de vestir é de fato admirável.
É uma pena que a sensibilidade do artista ganhe um tom melancólico durante todo o filme, reafirmando mais sua depressão que seu talento, julgando mais seu temperamento que compreendendo sua forma de olhar o mundo.  Laurent criticava seu meio social como um lugar sufocante para quem produzia alta-costura e por quem era sempre demandado originalidade e desenvoltura geniais. As várias tomadas que mostram suas casas e seus muitos objetos de decoração (que ele preferia, em lugar de pessoas) se mostraram de um certo mau gosto, dando ao documentário a impressão de ser um vídeo imobiliário. Aliás,  Pierre Bergé complementa essa impressão, sendo retratado como o apoio profissional e a pessoa encarregada de dar conta dos negócios, parecendo aliviado durante o polêmico processo de leilão das obras de arte do casal após a morte de Laurent. Estreia: 03 de dezembro.

O Louco Amor de Yves Saint Laurent (Pierre Bergé, L'amour Fou) - 104 min
França - 2010 
Direção: Pierre Thoretton

 
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domingo, 28 de novembro de 2010

Coppola e o crime organizado no RJ.



Nesse domingo de sol típico de primavera, às vésperas da pré-estreia de Tetro com a presença de Francis Ford Coppola no Rio de Janeiro, a cidade encontra-se às voltas com uma guerra civil entre o crime organizado e o Estado. Diante desse cenário, minhas emoções ficaram misturas. Não consigo parar de pensar nos dois filmes que mais amo na vida, por acaso (?) ambos do Coppola, mas também não consigo mergulhar nas lembranças das inúmeras vezes que assisti Drácula de Bram Stoker e O poderoso Chefão e esquecer do que está acontecendo na cidade. Sendo inevitável lidar, ao mesmo tempo, com minha memória cinematográfica e a preocupação em relação à realidade, acabei enxergando alguma semelhança entre ambas.
Assisti Drácula com uns 14 anos de idade e lembro que fui com meu irmão ao cinema porque gostava de filmes de terror. Para minha surpresa, descobri, ao longo daquelas 2h na sala escura, que tratava-se de uma história de amor que superava o tempo e a própria morte, embora permeada pelo ódio, colorida de sangue e impulsionada por uma necessidade de vingança pela vida roubada, pelo amor não vivido em toda sua plenitude. Assustador e sedutor ao mesmo tempo. Fiquei encantada! Assistimos duas sessões seguidas apenas pagando a primeira_ naquela época se podia fazer isso. Bons tempos!
Mais ou menos na mesma época, descobri O poderoso chefão. Era véspera de Natal e enquanto minha mãe preparava rabanadas, fui me distrair assistindo à sessão da tarde. Sabe-se lá porque razão, o filme exibido naquele dia foi O poderoso chefão III. Comecei a assistir meio sem interesse e logo estava hipnotizada pela história e pelos personagens. Comentei com o meu irmão que me disse: “Você gostou desse? Precisa ver os dois anteriores!”. Não perdi tempo, fui à locadora e aluguei as fitas (!!!) do primeiro e do segundo filmes da saga Godfather (título original).
Embora não entendesse de maneira profunda o conteúdo denso da história da família Corleone, ela me marcou da maneira que só os grandes amores podem fazer: tornou-se parte da minha história e da minha vida enquanto cinéfila. Me impressiona até hoje como os personagens e a narrativa me capturam de tal forma que me surpreendo sendo cúmplice de todos os crimes e jogos de poder em nome da manutenção daquela família ítalo-americana. Por mais que eles façam parte do crime organizado, que façam dinheiro às custas da exploração e do assassinato de outras pessoas, é impossível para mim não me comover com as tragédias que acontecem dentro da própria família Corleone. A trajetória de Michael Corleone (o Godfather que orquestra os 3 filmes) é marcada por muita dor, mortes e um enorme conflito entre razão e emoção. Michael diz: “Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade” e acrescenta: “Fazemos parte da mesma hipocrisia, mas não pense que isso se aplica a minha família”. Mas, ao longo da sua atuação enquanto chefe daquela família/organização, ele mostra-se impiedoso e brutal ao lidar até mesmo com pessoas de seu próprio sangue. No fim da sua trajetória, ele lamenta: “O que me traiu, minha mente ou meu coração?” Nesse momento, acredito que ele se perguntaria ainda: até que ponto matar os inimigos protegeu ou colocou a família ainda mais em risco? Fiz o que fiz pela família ou pelo poder? Ou não foi possível separar as duas coisas?
Pensando nesses meus dois amores cinematográficos, me deparo com a realidade do Rio de Janeiro. Vidas são roubadas, sonhos se perdem, amores são interrompidos em sangue e lágrimas, assim como na história do vampiro de Bram Stoker. Facções criminosas mantem o poder do tráfico empregando armas, violência e medo, assim como as organizações mafiosas retratadas na saga da família Corleone. E, exatamente por causa desse contexto, temos pouco acesso à história das pessoas que vivem nessas comunidades controladas pelo tráfico. Mal sabemos de suas dores, de suas dificuldades, de seus medos. Assistimos como espectadores assistem a uma tela de cinema, com o distanciamento próprio daqueles que acompanham a história de um filme. Aí me pergunto: será que não deveríamos dar mais atenção às histórias das pessoas que residem nessas comunidades (não só o complexo do Alemão, mas todo tipo de comunidade carente), no lugar de focar a atenção no espetáculo do crime organizado? Porque os espetáculos duram o tempo da projeção e depois são esquecidos pela maioria dos espectadores. Talvez seja melhor deixar alguém como o Coppola retratar o crime organizado como entretenimento e a nós caberia o papel de olhar para a realidade, para aquelas pessoas que tem seus direitos cerceados pela crime e pela negligência do Estado, tendo como testemunhas, como num filme de cinema mudo, um conjunto de pessoas sem voz chamado de sociedade.

sábado, 6 de novembro de 2010

Resenha "Minha terra, Africa"



A primeira coisa que me veio à mente, logo no início do filme, foi: o que aquela mulher branca, de aparência frágil, está fazendo sozinha num descampado isolado africano? E a pergunta permanece ao longo da projeção. Maria - a atriz francesa Isabelle Huppert, de A Professora de Piano (2001) -, diz que não se pode ter coragem na França, que viver com conforto é um estilo de vida covarde. A esse argumento ela se agarra como a um bote salva-vidas no meio do oceano e percorre toda a história de Minha terra, África, dirigido por Claire Denis, de Desejo e Obsessão (2001).  

O problema é que no seu “bote” de coragem só cabe uma pessoa - ela mesma - e sua produção de café. Numa cena interessante, um dos meninos do grupo armado rebelde encontra um objeto dourado que mais parece uma pequena barra de ouro. Mas logo descobrimos que trata-se de um mero isqueiro ao qual o líder do grupo se refere, de forma pejorativa, como White Material (título original), ou seja, coisa de branco. Nesse momento, e em vários outros, o desagrado e até o ódio dos negros com a presença dos brancos vai se revelando através de olhares, gestos e palavras. O clima é tenso e parece que só Maria se recusa a enxergar que a situação piora cada vez mais.  

O marido de Maria, André (Christopher Lambert, o eterno Highlander, gastando seu ótimo Francês), não acredita mais que é possível permanecer na fazenda, pois eles estão cada vez mais isolados e expostos a invasões dos rebeldes e ao fogo cruzado. Seu filho adolescente, Manuel (Nicolas Duvauchelle), mostra-se claramente deprimido e desorientado. Todos os negros, temendo a morte, seguem fugindo para longe. Os rebeldes rondam a região, o governo combate. Homens, meninos e meninas - filhos dos massacres, do descontentamento com a presença dos colonizadores e da história africana de guerras civis - morrem e matam. Todos estão com medo, menos Maria.  

Diz-se que o medo é o que regula a coragem como forma de auto-preservação, mas parece que Maria se alimenta mais de coragem que de medo. Uma coragem em defesa do seu próprio conceito de coragem (viver fora do conforto) e do produto do seu trabalho, o café. O mundo desmorona a sua volta, mas ela tem coragem. Só que quando a coragem não é usada para defender pessoas, e sim como uma atitude teimosa e alienada, ela pode ser tão letal quanto uma espingarda. Minha terra, África é um longa de ficção com jeito de documentário, com câmera lenta contemplando os cantos daquela fazenda, as pessoas... Mas a pergunta inicial permanece, não porque não sabemos as razões dos brancos estarem na África, visto que muitos já até são cidadãos de lá. A questão é outra: África, terra de quem? Estreia: 05 de novembro.

Minha Terra, África (White Material) - 106 min
França, Camarões - 2009
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Marie N´Dianye, Lucie Borleteau
Com: Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, Isaach de Bankolé, William Nadylam

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sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha "Sentimento de culpa"

A culpa é um sentimento que habita o universo do castigo. Quando alguém diz: “Menino, você comeu o bolo todo! Devia se envergonhar!”, pronto, a culpa ganhou vida, forma e importância. O menino vai se sentir humilhado ou não, vai comer o próximo bolo inteiro de novo ou não. Mas vai guardar o aprendizado de que há coisas que não se deve fazer, mesmo sem entender bem o porquê. E se essa mesma pessoa advertisse: “Menino, você comeu o bolo todo! Os outros meninos têm o mesmo direito que você. Isso está errado!”. Será que esse aprendizado semearia também a culpa ou ajudaria a construir a consciência do que é certo? Será que ter a consciência do que é certo ou errado também não seria uma forma de culpa?

Fazer o que é certo tem como referência nossos valores morais, nossa estrutura social. E, em geral, fazer o certo demanda um equilíbrio entre o que nós desejamos individualmente e aquilo que é bom para todos. Nesse contexto, há pessoas como a personagem Kate, vivida pela excelente Catherine Keener, que levam a culpa muito a sério e carregam um bloco de concreto nas costas, utilizando esse sentimento para alimentar um outro: a própria melancolia representada pela impressão de que ser feliz é uma manifestação de egoísmo.

O problema é que Kate, junto com seu marido Alex (o ótimo Oliver Platt) vivem de comprar móveis e objetos de decoração, por preços baixos, de pessoas recém-falecidas, e vendê-los por preços bem mais elevados - o que soa meio tragicômico e bem cínico. Kate faz lucro com a desgraça alheia, mas sofre e tenta compensar fazendo caridade. Em contraponto, a personagem de Amanda Peet, Mary, utiliza de uma sinceridade neurótica e agressiva para se livrar da culpa que as mentiras produzem. Ela se mostra fria e amoral, jogando a culpa de suas frustrações no resto do mundo, principalmente sobre a avó ranzinza Andra (Ann Guilbert), vizinha de Kate e Alex. Enquanto Kate disfarça sua culpa como solidariedade, Mary utiliza a culpa como ressentimento.

E os personagens de Sentimento de Culpa, da diretora Nicole Holofcener - de Amigas com Dinheiro (2006) - vão desfilando suas vidas cotidianas, ornamentadas com suas pequenas ou grandes culpas. Um relato delicado e bem focado na natureza humana e seus conflitos, com um humor bem sutil e ácido, caracterizando-se mais como drama do que como comédia, com um excelente elenco. Em certo momento do filme, me perguntei até que ponto somos conectados uns aos outros através da culpa, em vez do amor. Talvez se importar demais com os outros ou consigo mesmo seja, de qualquer maneira, uma forma de demonstrar mais ou menos amor. No fim, somos todos culpados ou culpamos alguém pelas nossas derrotas ou por nossas vitórias, por sermos amados ou não, por sermos felizes ou não. Estreia: 29 de outubro.

Sentimento de Culpa (Please Give) - 90 min
EUA - 2010
Direção: Nicole Holofcener
Roteiro: Nicole Holofcener
Com: Rebecca Hall, Elizabeth Keener, Elise Ivy, Catherine Keener, Josh Pais, Amanda Peet, Oliver Platt, Ann Guilbert

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