quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Amor por Acaso



Em sua estreia como diretor de longa-metragens, Márcio Garcia ficou à vontade para abusar dos clichês. Decidindo juntar o formato comédia romântica americano com personagens caricaturais que forçam o riso, no melhor estilo Zorra Total, o diretor não conseguiu produzir um resultado interessante. A história de Amor por Acaso (Bed and Breakfast no original) gira em torno da disputa de posse de uma propriedade na Califórnia (EUA), entre o americano Jake - o Superman Dean Cain - e a brasileira Ana - Juliana Paes, de A Casa da Mãe Joana (2008). Jake recebe a propriedade de herança de uma velha amiga e Ana, a parente mais próxima da dona falecida, tem direito sobre o imóvel. 

As justificativas que levam Ana à Califórnia não dão peso dramático e acabam dispensáveis à história, já que qualquer pessoa que recebesse uma propriedade de herança iria ao local para ficar ou providenciar a venda do imóvel. Jake é o clássico cara-bacana que tem amor pelo lugar que transformou numa pousada para ganhar a vida, naquela região rodeada de vinhedos. O ator dá conta do seu personagem e consegue nos fazer esquecer que ele já foi o Clark Kent. Juliana Paes é Juliana Paes a maior parte do tempo e a decisão de fazê-la falar inglês com uma entonação parecida com a dos americanos tornou sua atuação artificial.


Voltando ao nosso mais novo diretor, Márcio Garcia pecou pelo excesso ao mostrar as curvas de Juliana Paes incessantemente, como se dirigir um filme fosse um ato de voyeurismo vulgar, chegando ao cúmulo de fazer um cena em que Juliana sobe uma escadinha, no melhor estilo Zorra Total. Os demais personagens que compõem a parte cômica da história têm tanta graça quanto aqueles personagens do programa de TV que citei e a história se arrasta para um clímax previsível e não empolgante.  

Márcio Garcia, da próxima vez, poderia pelo menos utilizar melhor os clichês, como aquele clima irresistível que uma boa comédia romântica tem, que, mesmo previsível, comove e te segura na poltrona, além de um humor mais malandro e debochado, que os brasileiros sabem bem fazer. Ah, é bom também alguém dizer para ele que todos nós já conhecemos os atributos físicos da Juliana Paes e que vender a mulher brasileira como um objeto sexual para o mundo é algo que já deveria ter sido superado. Estreia: 10 de dezembro.

Amor por Acaso (Bed and Breakfast) - 80 min
Brasil, EUA - 2010
Direção: Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Com: Juliana Paes, Dean Cain, Eric Roberts, John Savage, Kimberly Quinn, Julia Duffy  

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O Louco Amor de Yves Saint Laurent



Julgamos loucura aquilo que não entendemos. Julgamos loucos aqueles que se diferenciam de tal forma dos padrões da sociedade, a ponto de não ser mais possível classificá-los em nenhum padrão. Alguns loucos talentosos e influentes até são aceitos, outros são relegados ao esquecimento, ao desdém. Yves Saint Laurent não se enquadra em nenhuma dessas categorias, porque não era louco. Como disse bem  Pierre Bergé, seu companheiro por 50 anos, Laurent, como artista genial que era, enxergava a sociedade sem se sentir pertencendo a ela. O estilista era um espectador atento e crítico. Por outro lado, Laurent parecia tão oprimido pelo contexto que o cercava, como parecia encantado com suas criações estilísticas produzidas numa escala que beirava a compulsividade. Ele criava como se quisesse se aliviar de alguma angústia.
Em certo momento do documentário dirigido por Pierre Thoretton, Laurent diz que lamenta não ter vivido sua juventude como ela deve ser: livre,  irresponsável e ingênua. Isso porque ele assumiu, em 1957, aos 21 anos, o lugar de Christian Dior, tornando-se uma referência instantânea da moda mundial, dedicando, assim, sua vida a esse trabalho.  E para aqueles que costumam dizer que não entendem nada de moda, eu me solidarizo. Creio que enxergamos a moda como um mercado fútil de venda de roupa cara. Na verdade, também é. Mas fica claro, nos poucos momentos em que o próprio Laurent se expressa no documentário, que as roupas, para ele, são como os quadros para Monet. E a maneira como Laurent transformava tudo que estava ao seu redor em arte de vestir é de fato admirável.
É uma pena que a sensibilidade do artista ganhe um tom melancólico durante todo o filme, reafirmando mais sua depressão que seu talento, julgando mais seu temperamento que compreendendo sua forma de olhar o mundo.  Laurent criticava seu meio social como um lugar sufocante para quem produzia alta-costura e por quem era sempre demandado originalidade e desenvoltura geniais. As várias tomadas que mostram suas casas e seus muitos objetos de decoração (que ele preferia, em lugar de pessoas) se mostraram de um certo mau gosto, dando ao documentário a impressão de ser um vídeo imobiliário. Aliás,  Pierre Bergé complementa essa impressão, sendo retratado como o apoio profissional e a pessoa encarregada de dar conta dos negócios, parecendo aliviado durante o polêmico processo de leilão das obras de arte do casal após a morte de Laurent. Estreia: 03 de dezembro.

O Louco Amor de Yves Saint Laurent (Pierre Bergé, L'amour Fou) - 104 min
França - 2010 
Direção: Pierre Thoretton

 
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domingo, 28 de novembro de 2010

Coppola e o crime organizado no RJ.



Nesse domingo de sol típico de primavera, às vésperas da pré-estreia de Tetro com a presença de Francis Ford Coppola no Rio de Janeiro, a cidade encontra-se às voltas com uma guerra civil entre o crime organizado e o Estado. Diante desse cenário, minhas emoções ficaram misturas. Não consigo parar de pensar nos dois filmes que mais amo na vida, por acaso (?) ambos do Coppola, mas também não consigo mergulhar nas lembranças das inúmeras vezes que assisti Drácula de Bram Stoker e O poderoso Chefão e esquecer do que está acontecendo na cidade. Sendo inevitável lidar, ao mesmo tempo, com minha memória cinematográfica e a preocupação em relação à realidade, acabei enxergando alguma semelhança entre ambas.
Assisti Drácula com uns 14 anos de idade e lembro que fui com meu irmão ao cinema porque gostava de filmes de terror. Para minha surpresa, descobri, ao longo daquelas 2h na sala escura, que tratava-se de uma história de amor que superava o tempo e a própria morte, embora permeada pelo ódio, colorida de sangue e impulsionada por uma necessidade de vingança pela vida roubada, pelo amor não vivido em toda sua plenitude. Assustador e sedutor ao mesmo tempo. Fiquei encantada! Assistimos duas sessões seguidas apenas pagando a primeira_ naquela época se podia fazer isso. Bons tempos!
Mais ou menos na mesma época, descobri O poderoso chefão. Era véspera de Natal e enquanto minha mãe preparava rabanadas, fui me distrair assistindo à sessão da tarde. Sabe-se lá porque razão, o filme exibido naquele dia foi O poderoso chefão III. Comecei a assistir meio sem interesse e logo estava hipnotizada pela história e pelos personagens. Comentei com o meu irmão que me disse: “Você gostou desse? Precisa ver os dois anteriores!”. Não perdi tempo, fui à locadora e aluguei as fitas (!!!) do primeiro e do segundo filmes da saga Godfather (título original).
Embora não entendesse de maneira profunda o conteúdo denso da história da família Corleone, ela me marcou da maneira que só os grandes amores podem fazer: tornou-se parte da minha história e da minha vida enquanto cinéfila. Me impressiona até hoje como os personagens e a narrativa me capturam de tal forma que me surpreendo sendo cúmplice de todos os crimes e jogos de poder em nome da manutenção daquela família ítalo-americana. Por mais que eles façam parte do crime organizado, que façam dinheiro às custas da exploração e do assassinato de outras pessoas, é impossível para mim não me comover com as tragédias que acontecem dentro da própria família Corleone. A trajetória de Michael Corleone (o Godfather que orquestra os 3 filmes) é marcada por muita dor, mortes e um enorme conflito entre razão e emoção. Michael diz: “Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade” e acrescenta: “Fazemos parte da mesma hipocrisia, mas não pense que isso se aplica a minha família”. Mas, ao longo da sua atuação enquanto chefe daquela família/organização, ele mostra-se impiedoso e brutal ao lidar até mesmo com pessoas de seu próprio sangue. No fim da sua trajetória, ele lamenta: “O que me traiu, minha mente ou meu coração?” Nesse momento, acredito que ele se perguntaria ainda: até que ponto matar os inimigos protegeu ou colocou a família ainda mais em risco? Fiz o que fiz pela família ou pelo poder? Ou não foi possível separar as duas coisas?
Pensando nesses meus dois amores cinematográficos, me deparo com a realidade do Rio de Janeiro. Vidas são roubadas, sonhos se perdem, amores são interrompidos em sangue e lágrimas, assim como na história do vampiro de Bram Stoker. Facções criminosas mantem o poder do tráfico empregando armas, violência e medo, assim como as organizações mafiosas retratadas na saga da família Corleone. E, exatamente por causa desse contexto, temos pouco acesso à história das pessoas que vivem nessas comunidades controladas pelo tráfico. Mal sabemos de suas dores, de suas dificuldades, de seus medos. Assistimos como espectadores assistem a uma tela de cinema, com o distanciamento próprio daqueles que acompanham a história de um filme. Aí me pergunto: será que não deveríamos dar mais atenção às histórias das pessoas que residem nessas comunidades (não só o complexo do Alemão, mas todo tipo de comunidade carente), no lugar de focar a atenção no espetáculo do crime organizado? Porque os espetáculos duram o tempo da projeção e depois são esquecidos pela maioria dos espectadores. Talvez seja melhor deixar alguém como o Coppola retratar o crime organizado como entretenimento e a nós caberia o papel de olhar para a realidade, para aquelas pessoas que tem seus direitos cerceados pela crime e pela negligência do Estado, tendo como testemunhas, como num filme de cinema mudo, um conjunto de pessoas sem voz chamado de sociedade.

sábado, 6 de novembro de 2010

Resenha "Minha terra, Africa"



A primeira coisa que me veio à mente, logo no início do filme, foi: o que aquela mulher branca, de aparência frágil, está fazendo sozinha num descampado isolado africano? E a pergunta permanece ao longo da projeção. Maria - a atriz francesa Isabelle Huppert, de A Professora de Piano (2001) -, diz que não se pode ter coragem na França, que viver com conforto é um estilo de vida covarde. A esse argumento ela se agarra como a um bote salva-vidas no meio do oceano e percorre toda a história de Minha terra, África, dirigido por Claire Denis, de Desejo e Obsessão (2001).  

O problema é que no seu “bote” de coragem só cabe uma pessoa - ela mesma - e sua produção de café. Numa cena interessante, um dos meninos do grupo armado rebelde encontra um objeto dourado que mais parece uma pequena barra de ouro. Mas logo descobrimos que trata-se de um mero isqueiro ao qual o líder do grupo se refere, de forma pejorativa, como White Material (título original), ou seja, coisa de branco. Nesse momento, e em vários outros, o desagrado e até o ódio dos negros com a presença dos brancos vai se revelando através de olhares, gestos e palavras. O clima é tenso e parece que só Maria se recusa a enxergar que a situação piora cada vez mais.  

O marido de Maria, André (Christopher Lambert, o eterno Highlander, gastando seu ótimo Francês), não acredita mais que é possível permanecer na fazenda, pois eles estão cada vez mais isolados e expostos a invasões dos rebeldes e ao fogo cruzado. Seu filho adolescente, Manuel (Nicolas Duvauchelle), mostra-se claramente deprimido e desorientado. Todos os negros, temendo a morte, seguem fugindo para longe. Os rebeldes rondam a região, o governo combate. Homens, meninos e meninas - filhos dos massacres, do descontentamento com a presença dos colonizadores e da história africana de guerras civis - morrem e matam. Todos estão com medo, menos Maria.  

Diz-se que o medo é o que regula a coragem como forma de auto-preservação, mas parece que Maria se alimenta mais de coragem que de medo. Uma coragem em defesa do seu próprio conceito de coragem (viver fora do conforto) e do produto do seu trabalho, o café. O mundo desmorona a sua volta, mas ela tem coragem. Só que quando a coragem não é usada para defender pessoas, e sim como uma atitude teimosa e alienada, ela pode ser tão letal quanto uma espingarda. Minha terra, África é um longa de ficção com jeito de documentário, com câmera lenta contemplando os cantos daquela fazenda, as pessoas... Mas a pergunta inicial permanece, não porque não sabemos as razões dos brancos estarem na África, visto que muitos já até são cidadãos de lá. A questão é outra: África, terra de quem? Estreia: 05 de novembro.

Minha Terra, África (White Material) - 106 min
França, Camarões - 2009
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Marie N´Dianye, Lucie Borleteau
Com: Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, Isaach de Bankolé, William Nadylam

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sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha "Sentimento de culpa"

A culpa é um sentimento que habita o universo do castigo. Quando alguém diz: “Menino, você comeu o bolo todo! Devia se envergonhar!”, pronto, a culpa ganhou vida, forma e importância. O menino vai se sentir humilhado ou não, vai comer o próximo bolo inteiro de novo ou não. Mas vai guardar o aprendizado de que há coisas que não se deve fazer, mesmo sem entender bem o porquê. E se essa mesma pessoa advertisse: “Menino, você comeu o bolo todo! Os outros meninos têm o mesmo direito que você. Isso está errado!”. Será que esse aprendizado semearia também a culpa ou ajudaria a construir a consciência do que é certo? Será que ter a consciência do que é certo ou errado também não seria uma forma de culpa?

Fazer o que é certo tem como referência nossos valores morais, nossa estrutura social. E, em geral, fazer o certo demanda um equilíbrio entre o que nós desejamos individualmente e aquilo que é bom para todos. Nesse contexto, há pessoas como a personagem Kate, vivida pela excelente Catherine Keener, que levam a culpa muito a sério e carregam um bloco de concreto nas costas, utilizando esse sentimento para alimentar um outro: a própria melancolia representada pela impressão de que ser feliz é uma manifestação de egoísmo.

O problema é que Kate, junto com seu marido Alex (o ótimo Oliver Platt) vivem de comprar móveis e objetos de decoração, por preços baixos, de pessoas recém-falecidas, e vendê-los por preços bem mais elevados - o que soa meio tragicômico e bem cínico. Kate faz lucro com a desgraça alheia, mas sofre e tenta compensar fazendo caridade. Em contraponto, a personagem de Amanda Peet, Mary, utiliza de uma sinceridade neurótica e agressiva para se livrar da culpa que as mentiras produzem. Ela se mostra fria e amoral, jogando a culpa de suas frustrações no resto do mundo, principalmente sobre a avó ranzinza Andra (Ann Guilbert), vizinha de Kate e Alex. Enquanto Kate disfarça sua culpa como solidariedade, Mary utiliza a culpa como ressentimento.

E os personagens de Sentimento de Culpa, da diretora Nicole Holofcener - de Amigas com Dinheiro (2006) - vão desfilando suas vidas cotidianas, ornamentadas com suas pequenas ou grandes culpas. Um relato delicado e bem focado na natureza humana e seus conflitos, com um humor bem sutil e ácido, caracterizando-se mais como drama do que como comédia, com um excelente elenco. Em certo momento do filme, me perguntei até que ponto somos conectados uns aos outros através da culpa, em vez do amor. Talvez se importar demais com os outros ou consigo mesmo seja, de qualquer maneira, uma forma de demonstrar mais ou menos amor. No fim, somos todos culpados ou culpamos alguém pelas nossas derrotas ou por nossas vitórias, por sermos amados ou não, por sermos felizes ou não. Estreia: 29 de outubro.

Sentimento de Culpa (Please Give) - 90 min
EUA - 2010
Direção: Nicole Holofcener
Roteiro: Nicole Holofcener
Com: Rebecca Hall, Elizabeth Keener, Elise Ivy, Catherine Keener, Josh Pais, Amanda Peet, Oliver Platt, Ann Guilbert

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sábado, 7 de agosto de 2010

A origem



Afinal, por que sonhamos?
Os sonhos, aqueles episódios diários orquestrados pelo nosso subconsciente, diz-se que tem por função organizar nossas ideias. Nós vivemos, experimentamos decisões, fazemos escolhas, corremos de um lado para o outro... E quando repousamos nossa noção de realidade no travesseiro, tudo por que passamos é, em teoria, revisado numa espécie de limpeza, onde nossos resíduos imaginários-sinápticos são varridos para longe da nossa consciência. Mas, para que isso? Talvez para nos manter sãos no mundo real.
Os sonhos, aqueles objetivos que mantemos em mente enquanto estamos acordados e que nos empenhamos em realizar, não são muito diferentes. Quando acordados, nós costumamos fazer uma seleção daquilo que desejamos, descartando, mesmo que temporariamente, outras possibilidades. Nos concentramos nos nossos sonhos afim de que sejam realizados. E quando testemunhamos diante de nossos olhos o resultado do nosso esforço, somos tomados por um estado de plenitude e esvaziamento concomitantes. Aquela completude breve seguida da constatação do reinício inevitável. A nossa liberdade de sonhar, tão doce, tão almejada sempre, se converte na angústia da realização do sonho que, por sua vez, nos projeta adiante. Sempre... O desejo concretizado é o vazio da realidade que clama por um novo sonho, como um copo vazio nas mãos de um sedento. 

Talvez, a diferença entre a realidade e sonho seja o limite tênue entre o impulso inicial e o fim abrupto, que se distanciam por um universo inteiro e por um nada. E esse espaço vazio e cheio ao mesmo tempo, seria um limbo ao qual nos remetemos de tempos em tempos quando tentamos converter nossa realidade em sonho ou fazer dos nossos sonhos uma realidade.
Não sei...


domingo, 16 de maio de 2010

Resenha: Fonte da vida (The Fountain)

A “árvore da vida” e a “árvore da sabedoria”.Izzi (Rachel Weisz) e Tommy (Hugh Jackman). Eva provou do fruto da sabedoria e a ela e Adão foi negado o fruto da vida, assim Izzi fala sobre a finitude humana que tanto procuramos desvendar e até superar.
Encantadora, Izzi é encantada pela ideia de que tudo o que existe constitui a mesma matéria e possibilidades infinitas de manifestação de vidas: “Se ao morrer, você for enterrado junto à semente de uma árvore, um dia o fruto dessa árvore será alimento de um pássaro. Você voará com ele.”, ela diz a Tommy resignada. Izzi acredita que pode voar: “I'm not afraid anymore”(eu não tenho mais medo), ela confessa.
De sua “árvore da sabedoria”, Tommy se alimentou a vida toda e não admite não ter o conhecimento necessário para curar Izzi de sua enfermidade. Ele é um bravo conquistador, como ela mesma o chama, incansável, porém distante em sua busca pela negação da morte. Não se pode lutar contra a natureza das coisas e compartilhar a compreensão dessa mesma natureza ao mesmo tempo, não é? Izzi diz: “Finish it” (termine), mas ela não está falando do experimento do laboratório de Tommy, ela fala do sofrimento dele de se sentir impotente diante da morte eminente dela. “Finish it” poderia ser “Understand it”(compreenda), mas aí não seria entendimento, seria convencimento.
Izzi quer que Tommy veja com seus próprios olhos um pouco mais além. Quer que Tommy assuma sem constrangimento suas limitações enquanto ser humano e cientista e também compreeenda seu potencial infinito de fazer parte da vida em si, do significado da vida, do estar presente, do estar perto...dela e de todos ao seu redor.

Izzi sabe, com uma paz invejável, que quando se perde a esperança, perde-se o medo e evita-se a decepção. Sabe que ter esperança é como se projetar para o futuro, negando o valor do presente. E o futuro é nada mais que um tempo ainda não vivido. Mas essa ideia não nega a importância dos sonhos, embora eles existam para durar uma só noite e alimentar o presente que nos é oferecido todos os dias. Para Izzi, a vida é agora e o amor transcende esse invólucro temporal que nos aprisiona.


Fonte da vida (The fountain
)
EUA , 2006 .

Direção:
Darren Aronofsky_ o mesmo diretor de "O lutador" (The Wrestler)- 2008 e "Réquiem para um sonho" (Requiem For a Dream)- 2000.

Roteiro:
Darren Aronofsky e Ari Handel

Elenco:
Hugh Jackman, Rachel Weisz, Marcello Bezina, Alexander Bisping, Ellen Burstyn, Cliff Curtis, Sean Gullette, Mark Margolis, Donna Murphy, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas